A Culpa é das Estrelas, de John Green

9 thoughts on “A Culpa é das Estrelas, de John Green

  1. Obviamente, os meus comentários sobre este fenómeno estarão inevitavelmente enviesados e influenciados, pelo simples facto de que me estou a basear no filme, e não no livro. Estou a seguir-me pelo facto de que a grande maioria da comunidade de fãs achou o filme uma apropriada adaptação do livro. Naturalmente, poderá ser uma falácia de amostragem, mas partilho a opinião de qualquer maneira, à moda do bom português, que gosta sempre de dizer algo sobre o assunto, mesmo que não perceba nada do mesmo. x)

    Como já expus no Facebook, fiquei bastante desiludido com a força do hype dada a este fenómeno quando fui ver o filme. Gosto de pensar que tudo merece uma oportunidade, portanto apesar de ser inicialmente invadido pelo preconceito de que seria um outro filme lamechas, exageradamente romantizado e melodramático, decidi vê-lo na esperança de que talvez trouxesse algo de novo e diferente, algo que o destacasse do típico e lhe fizesse merecer este estrondoso fenómeno que tem tido.

    *SPOILERS ADIANTE*

    Mas, enfim, não foi de modo nenhum o que retirei do filme. Além de recorrer aos clichés básicos de histórias deste género (morte comovente de um protagonista, romance entre os protagonistas com floreados e pequenos pormenores exageradamente romantizados, tom melodramático recorrente e invariável), ainda acho que tem o irritante pormenor acrescido de parecer glamorizar a alienação adolescente.

    Apesar de o autor talvez injustamente alargar essa sua ideia a outras sagas como o Twilight ou o Hunger Games, identifico-me muito na crítica que ele fez ao The Fault in Our Stars: http://www.economist.com/blogs/prospero/2014/06/new-film-fault-our-stars?fsrc=scn/fb/wl/bl/toosweettooselfabsorbed

    Hazel e Augustus, como qualquer típico adolescente, parecem viver só no seu mundo. Gostam de se isolar, mergulhando no mundo dos livros como fuga à realidade e romantizando a ideia do encontro com o autor como uma solução à angústia deixada pelo seu final, e estão sempre, sempre, à volta um do outro. O mundo é-nos apresentado pelos seus olhos, segundo a noção do “ninguém me compreende”, que após se conhecerem passa a ser “ninguém me compreende, excepto ele/ela”. E eu percebo, adolescentes são assim, e um estudo de personagens tem que entrar na sua personalidade. Mas eu fiquei muito com a ideia de que essa maneira de ser está a ser romantizada, o que me pica um pouco.

    O meu momento favorito, em todo o filme, é sem dúvida o encontro com o autor Peter Van Houten. Porque foi uma chapada dura e fria, pareceu o primeiro momento no filme em que se torna evidente que esse tipo de visão do mundo pode levar a desilusões e tristezas. Achei mesmo que pronto, agora sim o rumo tem potencial de se tornar interessante. Mas pouco depois a assistente vem, eles conseguem aproveitar bem a cidade na mesma, tudo porque “se têm um ao outro” – voltando um pouco à ideia do “ninguém me compreende, excepto ele/ela” – e parece que essa glamorização inicial da alienação volta com toda a força. E chega ao seu auge na cena da casa de Anne Frank.

    Este sim foi sem dúvida o momento que menos gostei do filme. Não diria que a crítica com que mais concordo seria a do “inapropriado”, mas muito mais a de que é extremamente forçada, muito mas muito pouco credível (pessoas a aplaudirem o beijo de dois adolescentes? a sério?), e é quase uma homenagem à alienação adolescente. É essencialmente um “não quero saber do mundo que me rodeia, só me importa ele/ela e pronto”. E a romantização dessa maneira de ser não é só interpretação ou sugestividade – é literalmente concretizada pelo aplauso de todas as pessoas. Tem todos os ingredientes maus: lamechice extraordinária, concretização do egocentrismo adolescente (estão todos focados neles), e falta de credibilidade.

    Ah, e há o outro famoso cliché neste tipo de histórias: não só a relação entre eles parece ser impecável e sempre cheia de fofice e alegria tonta e de pormenores só seus super cutxi (como o disfarçadamente lamechas “okay”, ou o hábito presunçoso do Augustus de fumar cigarros “metaforicamente”) até à triste morte de um dos seus elementos, mas também o rapaz apaixona-se por ela… logo. E imediatamente. E porque sim. Não há aquele “tempo até cair nas suas boas graças”, aquele “tempo em que se estão a conhecer um ao outro”, nada disso. E mais, é sempre ele que vai atrás dela. Parece tudo perfeito do ponto de vista dela. Tem um rapaz que venera o chão que ela pisa desde o primeiro instante em que se conhecem, sem ela fazer o mínimo esforço por isso, e que é charmoso, elegante e adora o mesmo livro que ela adora…

    Verdade, há a morte de Augustus, que parece uma maneira fácil de voltar a trazer à baila o tema da “dura e difícil realidade”, mas quanto à natureza da relação entre eles dois, das suas interacções, e do modo como começa, evolui e termina… tudo isso parece idealizado, e perfeito. Os ingredientes perfeitos para ficarmos comovidos quando Augustus morre, porque assim essa relação perfeita não tem maneira de continuar em toda a sua perfeita forma.

    *FIM DE SPOILERS*

    Dado o teu vídeo, parece quase que falamos de histórias diferentes, portanto não sei bem se sou eu que estou a perder algum pormenor que torne obsoleta toda esta minha interpretação, ou se simplesmente a adaptação do livro para o filme não é tão boa como a comunidade de fãs e os críticos queriam dar a entender. Pareces dizer que o livro nos acorda para a dureza da realidade, enquanto que a mensagem que retirei do filme é quase uma glamorização idealizada dela. Além de que a identificação com as personagens foi-me essencialmente impossível – não só porque parecem não querer saber do mundo fora do seu próprio, mas também porque parecem ainda satisfazer aquele retrato “ideal” de charme e elegância, e ainda pelo modo como falam (não, não me identifico com fala ‘Shakesperiana’).

    E pronto, termino aqui o meu rant totalmente desprovido de relevância visto serem comentários sobre o filme e não sobre o livro. xD De qualquer modo, aprecio sempre as tuas entradas e os teus vídeos, porque, embora este longo comentário possa não o fazer parecer, valorizo particularmente as tuas opiniões e pontos de vista sobre estes assuntos, e penso que tens sempre uma exposição bastante elegante e interessante. :-) E gosto sempre de os discutir contigo, quando estou em poder de o fazer, hehe. :-P Portanto, keep up the good work! ;-) E perdão novamente pelo extenso comentário discordante.

    1. André, realmente parece que lemos/vimos uma história muito diferente. Acho que se segue um comentário igualmente grande. xD

      Apesar de ser uma história de amor entre dois adolescentes, ela vai, na minha opinião, muito além do amor romântico. Sim, são duas pessoas que se apaixonam, que fazem uma viagem juntos, que passam grande parte do seu tempo um com o outro num mundo que parece ser só deles. Mas são também duas pessoas que têm quase literalmente os dias contados.

      Para mim, isso foi justificação suficiente para o Augustus ter abordado a Hazel com tanta facilidade – não sei como o fazem no filme -, algo que provavelmente não faria se não fosse confrontado com a ideia da sua própria morte diariamente. Eu não sei exactamente o que faria se me dissessem que chegar aos 30 já seria uma grande vitória para mim, mas pressinto que perderia o medo de uma série de coisas. Para além de que há aqui um pequeno choque cultural, na minha opinião. Aqui na Europa, os rapazes e raparigas esperam algum tempo até fazerem alguma coisa, mas os norte americanos encaram a coisa de uma forma muito mais prática. A Emma Watson fez um comentário acerca disso numa entrevista com a Ellen, em que diz que a abordagem “straight forward” dos americanos, sem rodeios, a assustou um bocadinho. Ela diz que os rapazes ingleses esperam uns meses, durante os quais ignoram as raparigas, até finalmente as convidarem para sair, enquanto os rapazes americanos olham para alguém de quem gostam, dirigem-se a elas e dizem “Hey, acho-te piada. Vamos tomar um café!” Não há rodeios, não há sinais, não há muito tempo pelo meio. Nós estamos presos à ideia do “só avanço se souber que devo”. Eles, regra geral, atiram-se de cabeça e logo vêem se dá certo. Isso não implica que seja amor à primeira vista, só algum “atrevimento”. São diferentes modos de estar. (entrevista aqui: https://www.youtube.com/watch?v=YtqfWK0dkq0)

      A comparação, não fundamentada, ao Twilight e a Hunger Games incomoda-me um bocado, sobretudo porque eu li todas as sagas que são postas ao barulho de fio a pavio. Dizer que têm em comum a “absorção” das personagens em si próprias não tem simplesmente fundamento. Penso que o autor confundiu aqui duas coisas: a narrativa na primeira pessoa e o egoísmo. Em todos estes livros, as protagonistas, do sexo feminino, contam a história da sua perspectiva e preocupam-se constantemente com os outros, sobretudo com os familiares. A Bella (Twilight), com todos os seus defeitos, está constantemente preocupada com o pai, com a família do namorado, com a mãe, com o Jacob… com toda a gente que a rodeia e com as consequências que as decisões dela terão para os outros. Não acho a relação dela com o Edward particularmente saudável, mas isso já era uma outra conversa que dava pano para mangas. Quanto à Katniss (Hunger Games), chego mesmo a dizer how dare you? (ao autor do artigo, claro xD) A rapariga oferece-se praticamente para morrer em vez da irmã, arrisca a vida inúmeras vezes pela família, pensa sempre neles enquanto está na Arena e, quando volta a casa, eles são sempre a sua prioridade, muito acima das televisões e da representação que os outros fazem dela. Finalmente, no caso da Hazel (TFIOS), ela repete vezes sem conta no livro o quão está preocupada em ser uma “granada”. A miúda está à beira da morte e a sua maior preocupação é com o facto de estar a deixar para trás uma mãe e pai destroçados e um Augustus ainda mais magoado do que estava antes de a conhecer. Tenho alguma dificuldade em entender de que modo isto é olhar só para o seu umbigo, de uma forma “tipicamente adolescente”.

      Também não posso concordar que, como diz o autor do artigo, uma rapariga adolescente dificilmente tenha como sonho conhecer um escritor. Mais uma vez, não o justifica, mas acho que revela um certo preconceito (talvez seja uma palavra um pouco forte, mas não me lembro de outra melhor). Isto porque o que faria sentido era que ela quisesse conhecer os One Direction, “porque eles são, tipo, super giros!”? Para uma pessoa que não gosta de clichés, acaba por ser um bocadinho contraditório.

      A ideia de que eles vivem isolados do mundo não tem nada a ver com amor romântico. Eles têm cancro, tiveram de deixar de ir à escola, têm muito poucos amigos. Infelizmente, quando alguém adoece, isola-se e sim, cria o seu próprio mundo, porque é isso que fazemos quando nos sentimos sozinhos. E não penso que isso seja romantizado, pelo menos no livro. Ela queixa-se constantemente da falta de ar, do quão se sente fraca e com ar de “extraterrestre”, de como os tratamentos fizeram com que a sua cara inchasse e a sua expressão fosse alterada, tornando-se indubitavelmente na cara de alguém que está doente.

      A cena da casa da Anne Frank tem muito que se lhe diga. Sim, até no livro achei que o aplauso foi excessivo, mas o facto é que aquelas pessoas viram aquela rapariga que leva uma bomba de oxigénio atrás de si subir lances de escadas, com o rapaz com uma prótese na perna e para quem escalar uns degraus é uma tarefa estupidamente dolorosa. Eles fizeram-no. Se me perguntarem, o aplauso tinha um pouco mais sentido nesse momento.
      A Hazel fala de como consegue identificar-se com a Anne por a sua vida ter sido interrompida tão abruptamente, tão cedo, por circunstâncias que lhe eram alheias. Há ainda a coincidência de a Anne ter morrido numa câmara de gás, sem ar, e de a Hazel estar a morrer precisamente por já não conseguir respirar em condições. E o momento em que o beijo acontece é quando está a passar uma gravação do pai da Anne a falar da filha. A preocupação de Hazel, o que a impede de se ligar a outras pessoas, é precisamente o facto de achar que isso só lhes causará mais sofrimento. Mas ali está o pai da Anne, a dizer que, depois de ler o seu diário, chegou à conclusão de que não conhecia bem a filha, de que não fazia ideia de que ela tinha pensamentos tão profundos. E ali estão todas aquelas pessoas, a visitar a casa deles. Uma vida tão curta, mas com tanto significado. Por que não poderia ela também permitir-se a fazer as coisas que queria?

      Também tenho alguma dificuldade em dizer que se trata de uma relação perfeita e adorável. O facto de eles terem um hotel espectacular e tudo isso tem a ver com o próprio programa, do género do Make a Wish. Uma das raparigas abrangidas pelo programa, Ana Sofia Alves, chegou a pisar o red carpet dos Óscares. Quanto à ligação que há entre a Hazel e o Gus, ela é bastante estreita, mas também tem os seus piores momentos, sobretudo quando ele começa a ficar cada vez mais doente e a perder funções básicas, como poder ir sozinho à casa de banho, comer ou até mesmo falar. Numa das vezes, ele telefona à Hazel porque está imóvel, no carro, sujo do seu próprio vomitado, completamente desesperado por já não conseguir sequer sair de casa sem ajuda. Eu percebo que se diga que eles quase não discutem, mas isso é só porque não tiveram tempo para chegar a essa fase.

      O livro fez-me mesmo pensar no quão a minha vida é finita, fugaz, e no quão eu dependo do sucesso ou insucesso do meu corpo para reagir ao que lhe faz mal para continuar a existir. É estupidamente cruel. Aliás, no início do livro, a Hazel é quem está francamente pior mas, ainda assim, é o Gus que acaba por morrer, de um cancro que nem tem uma taxa tão elevada de mortalidade.

      Isto para dizer que, como afirmei no início, o centro da história não é a forma como eles se amam um ao outro. Nem acho que isso importe assim tanto. O mais importante é que duas pessoas condenadas a ter vidas desgraçadas, presas a hospitais, operações e tubos, afinal querem apaixonar-se também, e ler livros, e ter sonhos. Como a Hazel reflecte a certa altura, o facto de termos fome, por exemplo, não faz com que o nosso único desejo seja comer. O desejo dela não é simplesmente ser saudável. Os sonhos dela são comuns provavelmente a muitas outras pessoas. Certas coisas que ela diz fizeram-me pensar que podia ser eu, entendes? Podia ser eu a ter um cancro, e a sentir-me uma extraterrestre, a ser privada de ir para a universidade, ou simplesmente ter alguma autonomia. E isso, de todas as coisas, atingiu-me. Podia ser eu a ter os dias contados. Pôs-me a pensar o que faria com eles, de que modo a minha vida importaria para alguma coisa.

      E é aí que entra a conclusão de John Green. Que vale a pena. Eu estar a escrever este comentário gigantesco (sorry :P) vale a pena. E conhecer as pessoas, ouvir histórias, ler livros, rir com os amigos, arriscar numa relação condenada… e reparar. Apesar de não ter tido tempo de fazer nada de glorioso na vida, como desejaria, o Gus conclui que os verdadeiros heróis são as pessoas que prestam atenção. Não as que tentam desesperadamente deixar a sua marca, mas as que reparam e fazem tudo para que a “cicatriz” que deixam no mundo seja uma “boa cicatriz”. No mundo em que vivemos, em que todos competimos por lugares, em que somos avaliados por números e queremos um momento de fama ou de triunfo, dizer que a posição de observador curioso é a privilegiada é quase um alívio.

      Enfim, o livro disse-me muita coisa, e nenhuma delas foi que o cancro nos traz namorados perfeitos. Vou ficar muito chateada se chegar à conclusão que o filme é só mais uma “dramédia” romântica, igual a todas as que já vi.

      1. Antes de mais, deixa-me agradecer-te pelo extenso comentário em resposta que fizeste, que assim já me sinto muito menos mal por invadir os teus posts com os meus longos comentários. ;-P

        Vou pôr um *AVISO DE SPOILERS* aqui novamente, só por consideração pelos restantes leitores do blog. :-P

        Efectivamente, em retrospectiva, a relação de Augustus com a Hazel parece começar e evoluir da maneira certa, talvez tenha sido exageradamente crítico aí. A abordagem que ele fez para a convidar não foi propriamente o aspecto que mais me incomodou, até porque, como dizes, é uma diferença cultural que já me habituei a ver (e admirar, acrescento) em filmes americanos. O que talvez quereria dizer melhor é que a relação parece basear-se exclusivamente em ele fazer coisas para a tornar feliz – é ele que faz tudo para a conquistar, é ele que parece nunca querer desistir dela e se recusa a ser posto de parte. Ela essencialmente é venerada por ele, e há pouco que ela tenha de fazer activamente na relação a não ser aceitar a sua adoração. Não é que ela não faça uma ou outra coisa, ocasionalmente, mas parece sempre incrivelmente mínimo comparado ao esforço e empenho que Augustus tem pela relação (isto falando ainda no decorrer “normal” da relação, antes da “notícia fatal”). Mas isto também é um cliché típico de muitas histórias amorosas, só queria dizer que esta história não pareceu fugir, pelo menos, desse cliché. Curiosamente, já tinha visto exactamente essa mesma entrevista da Emma Watson, se bem que o pormenor que mais me marcou foi a aparente frequência do uso de flip-flops pelos rapazes americanos. xD

        Quanto à comparação ao Twilight, não poderei comentar que nunca vi/li, mas quanto ao Hunger Games realmente concordo que foi um pouco inapropriada. Se bem que acho que o termo de comparação não é bem a “absorção”, mas sim o facto de que essas sagas parecem louvar os sentimentos de alienação tipicamente adolescentes ao torná-los identificáveis com os de alguém em situações extremistas. Não se referindo à indiferença perante outras pessoas, especialmente pessoas próximas como a família, mas sim ao aparente desdém das protagonistas pelo convencional e pelo mainstream. No caso de Katniss, perfeitamente justificado já que o costume mainstream é fazer pessoas de distritos diferentes matarem-se por entretenimento. No caso de Hazel e Augustus no TFIOS, a justificação para esse tipo de desdém já me parece um pouco arrogância e mentalidade do tipo “ninguém percebe a vida, só nós porque temos cancro e passamos pelas consequentes dificuldades”. Hazel literalmente invoca esse tipo de caracterização na reunião do grupo de apoio a cancro ao não só rebaixar imenso as reuniões, mas também pela resposta negativista que dá a Augustus quando ele refere, na primeira em que se encontram, que ambicionava deixar a sua marca no mundo. Parece que o autor da história quer apoiar-se demasiado na justificação “ter cancro deixa as pessoas muito bitter quanto à vida” como uma fácil desculpa para esse tipo de atitude das personagens. Para muitas pessoas, pode soar realista e identificável, mas para mim pareceu-me mesmo uma táctica simples de justificar a arrogância dos protagonistas.

        Quanto ao comentário do autor do artigo de que nenhuma rapariga teria o sonho de conhecer um escritor, isso sim foi puro preconceito dele, completamente desprovido de razão. Mas também acho que foi algo um pouco tongue-in-cheek,

        O criarem o seu próprio mundo, viverem nele e isolados de todo o resto não é propriamente a minha crítica. Até porque as suas condições justificam-no perfeitamente. O meu maior problema é precisamente o seu desdém pelo mundo dos outros. A sua ideia de que eles parecem perceber melhor sobre as dificuldades da vida do que todo o resto. Não estou a dizer que eles não se aproximam das outras pessoas, porque realmente a Hazel nitidamente mostra grande afecto pela família, e ainda há o amigo do Augustus, Isaac (de longe, para mim, a melhor personagem de todo o filme). Mas há, por exemplo, o famoso hábito de Augustus em fumar “metaforicamente”, que a mim, apenas me soou como pura presunção da parte dele. Há o modo como eles dois rebaixam o hábito de Isaac e a Monica dizerem constantemente “para sempre”, mas depois eles próprios dizem “talvez ‘okay’ possa ser o nosso ‘para sempre'”, que além de arrogância ainda revela um pouco de hipocrisia (quer dizer, o Isaac está a ser um tolo ao acreditar no ‘para sempre’, mas eles redefinem o ‘para sempre’ como ‘okay’ e deixa de ser tolice?).

        A cena da casa de Anne Frank, verdade seja dita, incomodou-me imenso, e foi pura e exclusivamente por causa do aplauso. Se não fosse o aplauso, não teria nada de mau a destacar. Mas o aplauso foi excessivo, sem dúvida, e irritou-me particularmente porque parece mesmo concretizar a ideia de que este casal é o centro do Universo, e toda a sociedade geral está inferior e deverá admirar este impecável e perfeito casal de adolescentes. Deixou-me um mau gosto na boca. Se não fosse por isso, até teria o potencial de ser uma cena muito boa, precisamente por causa de tudo o que apontaste. A identificação de Hazel com a Anne Frank, o modo como as suas circunstâncias se assemelham, a façanha notável de conseguir subir todos aqueles lances de escadas mesmo com as suas dificuldades… Quando se começaram a beijar, pareceu-me apropriado dado isso tudo, e até compreensível tendo em conta a terrível desilusão que tinham tido há pouco com o Peter Van Houten. Mas o aplauso retirou todo esse charme da cena e tornou-a completamente insuportável, pelo menos para mim.

        Eu acho que é uma relação perfeita e adorável no sentido de, entre Hazel e Augustus, nunca parecer haver qualquer mau momento ou situação particular onde os sentimentos de um pelo outro são postos à prova, ou onde a relação tenha laivos de credibilidade e realismo. Não digo necessariamente pelo mundo mágico que o programa Make a Wish possibilita, mas mesmo pelas suas imensas interacções, modo como falam, mensagens trocadas, pormenores característicos seus, etc. Todas as dificuldades que chegam a ter nunca são problemas da relação em si, ou deles, é do cancro de que eles são vítimas inocentes. Qualquer problema na relação que exista deve-se sempre às circunstâncias alheias dos seus problemas de saúde, e da sua tentativa de os ultrapassar. Nunca de problemas da relação em si – essa é constantemente perfeita, cutxi, fofa e adorável. O que é um estilo próprio, e eu percebo, mas simplesmente não creio que traga nada de novo ou mais especial que a maioria das relações retratadas neste tipo de histórias, daí a minha categorização como “cliché”.

        Os teus próximos parágrafos fazem-me parecer que talvez a morte de Augustus não tenha sido abordada da melhor maneira no filme comparativamente ao livro (o que é algo que também já li previamente), o que pode ter afectado a minha apreciação pela história. A impressão com que fiquei do filme é que a relação amorosa entre eles dois é mesmo o foco principal de toda a história, e que o cancro e os problemas de saúde são apenas pormenores secundários que não só permitem o contexto da história (isolados, bitters quanto à vida) mas também dão a desculpa fácil de matar um protagonista de um modo plausível, para efeitos de comover o público. Durante o filme, não chegamos propriamente a ver nenhuma altura onde o Gus fica “progressivamente pior”. Há o momento onde ele diz à Hazel sobre o diagnóstico, sabemos que o momento virá, mas até lá, a relação entre eles dois praticamente não se altera. Apenas tem o pormenor acrescentado de todas as suas interacções serem muito mais bittersweet, porque há a realização por parte de ambos de que esta tem mesmo os dias contados. Mas o Gus nunca perde a sua elegância, o seu charme, ou o seu optimismo. Apenas em situações muito, mas muito raras. E não de um modo radicalmente diferente. Aparece o momento da chamada feita pelo Gus no seu carro, mas acho que se cinge a isso e mais nada. O que, para mim, foi apenas uma cena para relembrar que o seu fim está próximo. E não como um sinal de que a relação deles se começou a deteriorar em consequência do estado do Gus. Isso, a meu ver, nunca ocorre. Permanece perfeita, ideal e romantizada literalmente até ao momento da sua morte.

        *FIM DE SPOILERS*

        Fico muito feliz por saber que a história te afectou tão profundamente, é uma situação rara mas preciosa quando uma obra artística nos consegue dizer imenso a nível pessoal, fornece-nos logo um tipo muito especial de apreciação pelo mundo que creio ser difícil de reproduzir. É particularmente valioso quando esse tipo de apreciação envolve ficar agradecido por tudo aquilo que damos por garantido, o que é um hábito nosso muito mais recorrente do que deveria ser, seja os momentos banais do dia-a-dia, a nossa saúde, ou o conjunto de oportunidades que temos às nossas mãos. Por um lado, apenas me deixa um pouco mais frustrado, porque o fenómeno que isto tem tido dá a entender que muitas pessoas, como tu, se identificaram a um nível muito pessoal com esta história. E dá-me pena não pertencer a esse grupo. Mas enfim, acho que, ao fim e ao cabo, A Culpa é das Expectativas.

        Estou igualmente curioso sobre o que tens a dizer sobre o filme e se algum dos meus pontos de vista se torna ou não um pouco mais compreensível pela exposição que é feita no filme, em vez de pela que é feita no livro, portanto, depois de o veres, talvez pudesses comentar sobre isso. x) Não diria que é uma “dramédia” típica, porque essencialmente há muito pouco “comédia”, é quase um melodrama do início ao fim. A maioria das pessoas pareceu achar o filme uma boa adaptação do livro, mas tu também não és como a maioria das pessoas. ;-) Depois diz qualquer coisa sobre isso então.

  2. Ahah, não tens de te sentir mal por fazeres comentários longos! xD Não é, de todo, uma invasão.

    Percebi agora melhor o que queres dizer com a diferença de papéis entre o Gus e a Hazel, que parece um pouco desequilibrado. A certo momento os papéis invertem-se, porque passa a ser ele a estar em pior situação mas, pelo que percebi, essa parte é cortada no filme ou tratada de uma forma ligeiramente distinta mas que parece fazer toda a diferença.

    No que diz respeito ao louvor da alienação adolescente, acho que temos de ter em conta que quem escreve estes livros não é normalmente quem foi extremamente popular quando era adolescente. Logo, escrevem personagens que, tal como eles, desprezam o mainstream, as modas, etc. Mas acho que é mais do que isso. Qualquer história de heróis faz exactamente a mesma coisa. Desde o Matrix, ao Avatar, ao Harry Potter, os protagonistas têm algo de interessante porque são diferentes, porque ignoram a norma ou tentam desafiá-la. Se os protagonistas parecem arrogantes por causa disso, isso deve-se provavelmente à interpretação dos actores. Mas, ainda assim, a atitude arrogante, ou amarga não só é justificável e normal perante a situação que vivem como é uma lufada de ar fresco. No romance que muitas vezes comparam a TFIOS, A Walk To Remember, uma adaptação de um livro de Nicholas Sparks, a protagonista é sempre uma santa (e, curiosamente, é ela que faz os avanços, não ele xD). Durante todo o filme, ela não mostra frustração, nem raiva… só um sorriso angelical. Já eles são adolescentes linguarudos, respondões, que desprezam os hábitos românticos dos outros por acharem foleiros. Mas quando desdenham, isso não quer dizer que não queiram algo assim para si. De resto, quem vê relações amorosas de fora, particularmente pessoas solteiras a quem a vida não corre particularmente bem, não costuma ficar entusiasmado ou emocionado com as manifestações de afecto.

    Parece-me que uma das coisas que mais te irritou foi a personagem do Augustus, talvez por uma razão semelhante por que não gostavas de Sherlock. A arrogância, o desprezo pelo resto do mundo, enfim. Vejo aí um padrão. :P

    Posto isto, resta-me dizer que ainda não fui ver o filme. Depois de o ver, dir-te-ei se saí desiludida e lavada em lágrimas, satisfeita e lavada em lágrimas ou… bem, acho que já percebeste a ideia. xD

    1. Hehe folgo em saber da tua aprovação pela extensão dos comentários, conter-me-ei ainda menos na escrita dos mesmos então, se é que isso será possível. x)

      Pois, sabendo desse outro lado da história da relação, onde a rapariga é que se torna o elemento condutor e poderoso, devido aos problemas de saúde do Gus, talvez poderia ter visto a história sob uma outra luz que me agradasse mais. E aí a ideia clássica do príncipe encantado ter de serenar a princesa isolada no seu castelo, que esfola dragões para a impressionar e dá tudo de si só por qualquer mera oportunidade de a fazer feliz, pode ser suavizada e até ser dada uma reviravolta cruelmente irónica. A Mariana mandou-me mensagem mesmo há pouco a dizer que acabou o livro e achou que efectivamente a classificação da história como um pastiche da comédia romântica ou da típica história melodramática perde-se muito mais no livro, e que, mesmo sabendo do meu desapreço pelo filme, mo recomenda. Talvez os episódios do Gus a ficar progressivamente pior sejam o motivo. Não o duvido, e até estaria disposto a pô-lo a teste, só de o imaginar acredito que dê um nova e mais interessante faceta sobre a história, mas de qualquer modo espero que compreendas a minha natural relutância em me aventurar na sua leitura. :-P

      Sim, o desafinar a norma, destacar-se do ordinário e ser distintamente diferente não é, de modo algum, a mínha crítica. Como dizes, é quase um elemento fundamental na categorização de heróis. O meu embirranço está mesmo na aparente atitude de arrogância. O facto de serem adolescentes, confesso, apela mais pela minha capacidade de aceitação, porque é algo tipicamente adolescente. E portanto aí, como dizes, são linguarudos, respondões, acham todos os outros foleiros… E sim, faz sentido na sua caracterização, especialmente dado o quão mais bitter estão no direito de ficar devido à sua condição. No entanto, a atitude arrogante picou-me demasiado quando o autor enche as reflexões sobre a vida das personagens e os seus comentários presunçosos sobre a maneira geral de ser com aquele palavreado ‘Shakespeariano’, como caracterizaste tão bem no teu vídeo. E romantiza-os. Faz esses comentários e conversas um foco tão grande do filme, que parece quase glamorizar esse tipo de atitude, o que ainda mais me repudia. Não duvido que haja imensas outras facetas interessantes para estas personagens, mas ao haver tanto foco para conversas intelectualizadas cheias de floreados que são expostas de uma maneira a querer dar-lhes tanta importância e que são algo a verdadeiramente valorizar e prestar atenção, a atitude de arrogância e desdém por detrás delas ganha demasiado destaque, o que me impede de conseguir apreciar algumas possíveis invejas escondidas ou significados mais profundos desse desdém.

      Pois, como já devo ter dado a entender, protagonistas arrogantes são um grande calcanhar de Aquiles meu. xP Não quer dizer que não sejam capazes de entrar nas minhas boas graças, mas tem de haver algo seu para além da sua arrogância que me cative, senão é demasiado fácil a personagem me desagradar. Ou tem de ser uma arrogância jocosa, ou a personagem tem de ser apresentada como tendo alguma fraqueza de carácter adicional, ou alguma vulnerabilidade que justifique a arrogância. Gostei do padrão que detectaste, muito observadora tu. ;-) Na altura em que a série era fenómeno, eu também nunca cheguei a gostar de House… Imagina porquê. ;-P Na verdade, pode haver uma razão pessoal para personagens arrogantes serem particularmente detestáveis aos meus olhos, mas isto já é divagar demasiado.

      De resto, quanto ao filme, a tua paixão pelo livro torna-o uma visualização absolutamente essencial. Como complemento, e apelando também à minha curiosidade pessoal de ver a tua opinião quanto à fiabilidade da adaptação. E sim, não te esqueças dos lenços. xD Quando o fui ver, havia uma fila de raparigas adolescentes atrás de mim a fungar o filme todo. Se foi pelas mesmas razões que tu terás, havemos de ver. Depois então não te esqueças de me avisar prontamente quando o vires. :-)

      1. Sim, aviso! :) Descobri agora que os guionistas do filme foram os mesmos do 500 Days of Summer, o que me faz pensar que as minhas queixas quanto aos diálogos não vão ser assim tantas. xD Não conheço o realizador, por isso, aí não tenho nada a dizer.

      2. Já vi o filme, André.
        Só tenho a apontar como falha a banda sonora. Tenho pena que não tenham investido em música de orquestra, acho que faria toda a diferença nalguns momentos. Algumas partes do livro ficaram de fora, mas… independentemente dessas coisas, acho que vou “defender” sempre esta história. :)

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