Livro: Guia Para Um Final Feliz

E ainda na sonda de tentar cumprir as minhas resoluções de 2013, aqui vai o segundo livro do ano.

6 thoughts on “Livro: Guia Para Um Final Feliz

  1. Nunca gostei muito do básico preconceito que se cria de que os livros são inerentemente melhores do que os filmes baseados neles. Acho uma generalização exageradamente simplista e que tem diversos contra-argumentos. Fico, assim, muito satisfeito por ver que finalmente te deparaste perante um caso em que possas dizer o mesmo. x)

    O primeiro que teve esse efeito em mim foi o filme/livro Misery. Adoro o filme, mas o livro é demasiado descritivo para reproduzir fielmente os elementos surpresa e para conseguir transmitir o ambiente, que é assombroso precisamente por ser misterioso e incógnito. Em vários casos, mais história não significa melhor história, que é o argumento-base que ouço dizer por quem louva os livros acima dos filmes (tem mais pormenores, percebe-se melhor a caracterização das personagens…). Por vezes, saber menos torna a experiência melhor.

    Despertaste-me o meu interesse particular perante um pormenor, que te pedia para partilhares, se não fosse pedir muito. Falas aí de uma “moral” que a história transmite. Que moral crês ser essa? Confesso que posso não ter interpretado o filme da melhor maneira, mas, para mim, tratou-se apenas de um filme com um bom enredo, boas personagens, uma excelente abordagem aos temas de instabilidade mental/emocional e um arco de história muitíssimo engraçado, mas não retirei dele nenhuma lição ou mensagem particular. Apenas uma história muito gira.

    Outra coisa que gostaria de apontar é o facto de teres dito que a imaturidade do Pat seria apenas perdoada se ele ainda estivesse numa fase de adolescente, algo que se invalida pelo facto de ele ter 35 anos. A condição mental que o aflige não poderia ser igualmente motivo para “perdoar” essa imaturidade? É porque, a meu ver, ele no próprio filme revela esses laivos de imaturidade, mas deixamo-los passar porque vemos que ele realmente tem problemas em conseguir controlar esse seu lado devido à sua bipolaridade. Pelo menos, foi assim que vi o filme e me consegui apegar à personagem – devido às suas aflições e pelo que ele passou, aliado à sua condição, o facto de não ter a sua personalidade e maturidade completamente controladas parece-me “perdoável”.

    Kudos também pelo teu uso da palavra “estupidificar”. Acho-a fantástica e gosto sempre de ver quando é utilizada. xD E nem me tinha apercebido, até depois de ter visto o teu vídeo, mas é mesmo uma palavra verdadeira, sempre achei que se tinha formado por liberdades artísticas do falar coloquial.

    Acho muito curioso teres escolhido apontar o excerto do livro que se foca em dissociar as actividades simples de tocar no corpo um do outro que são comuns em dança moderna de actos de teor sexual. xP Alguma razão particular por essa escolha? Crês que é uma associação demasiado frequente no nosso quotidiano ou foi apenas porque, enfim, achaste piada a essa parte? ;-)

    Ainda poderia tentar voltar a pedir desculpa por te ter dado tal muralha de texto em resposta, mas acho que já não tenho o direito de o fazer, porque notavelmente não tenho feito qualquer esforço por as evitar. :-P De qualquer modo, envio-te mil perdões por tal extensão de comentário, e aguardarei ansiosamente as restantes entradas que terás para partilhar connosco. :-)

    Beijinhos***

    1. Olá, André! =D

      Quanto à moral, vai um pouco de encontro àquilo que disse no final acerca das segundas oportunidades. Por acaso era uma coisa que tinha dito originalmente no vídeo mas que cortei porque estava a ficar muito extenso. =P As histórias deste género costumam passar um bocado a ideia de que cada um de nós tem apenas uma oportunidade de ser feliz e que, se não o apanharmos, o “final feliz” deixa de estar ao nosso alcance. Pat passa o livro todo a falar da Nikki, do quão perfeita é a Nikki, de como a sua vida vai ser tão fantástica quando acabar o tempo de separação com a Nikki, para descobrir, no final de tudo, que ela seguiu com a sua vida, voltou a casar, tem filhos e, no topo disso tudo, foi protagonista de uma traição. Acho que passa a ideia de que é um bocado idiota pormos as pessoas num pedestal e que, por vezes, como diz a música, podemos não ter aquilo que queremos mas acabamos por ter aquilo de que precisamos. Pode não parecer muito romântico ou mágico, mas é genuíno e desafiante.

      Eu acho que a vulnerabilidade do Pat foi muito bem trabalhada no filme. Fiquei até surpreendida por ver uma prestação tão sólida da parte do Braddley Cooper. Mas o livro é escrito de um modo que se assemelha mesmo ao diário de um adolescente, e isso causou-me algum desconforto durante a leitura. Uma coisa é ser vulnerável, e sentir-se realmente afectado por ter perdido cinco anos da sua vida e parte da sua memória. Mas as memórias não acabam quando o rapaz estava no liceu; acabam quando tinha 30 anos e teve um ataque de fúria descomunal. Quando vi que o Matthew Quick só escrevera antes livros de adolescentes, percebi que, de facto, este é o estilo dele. Só achei que se calhar não era o mais apropriado para a história que é, realmente, interessante e pouco tradicional, por assim dizer. Não estou a dizer que está mal escrito, acho só que a escolha de estilo nem sempre combina.

      Escolhi aquele excerto porque gosto imenso da personagem da Tiffany (se calhar o facto de a Jennifer Lawrence a ter interpretado ajuda) e achei que era realmente engraçado. Consegui mesmo ver o filme todo na minha cabeça, o Pat corado a andar de um lado para o outro, ela a resmungar como se estivesse a falar da coisa mais natural do mundo. xD E sim, as pessoas levam muito a sério o contacto físico em qualquer tipo de arte. Pode ficar muito lindo no palco, ou no ecrã, mas quando se tem um monte de luzes a apontar para nós e vários marmanjos atrás de uma câmara a pedir para se repetir a cena uma e outra vez, receio que o romantismo se perca e se torne em algo apenas mecânico. =P

      De qualquer modo, acho que é um livro interessante de se ler, sobretudo se se estiver naquela situação que referi no vídeo. Lê-se muito rapidamente, é leve e divertido. Foi mesmo bom para começar as férias. :)

      1. Ah OK, já percebo então a moral que detectaste no filme/livro. Sim, nesse aspecto, concordo contigo, realmente passa a mensagem de que não vale a pena estar a perder tempo com causas perdidas, como acontece com a obsessão do Pat em voltar para a Nikki. Mas não sei se, como dizes, é algo que não é propriamente muito romântico ou mágico. A Tiffany parece que surge como a salvação para retirar o Pat dessa sua persistência em seguir um caminho que está condenado à partida, dando-lhe assim um teor mais romântico.

        De qualquer modo, parece mesmo que a principal razão pela qual Pat consegue esquecer a Nikki e seguir em frente deve-se à Tiffany. Posso estar redondamente enganado, porque estou a basear tal interpretação apenas da visualização do filme, pois não li o livro. Porém, se for este o caso também no livro, creio que não seja uma obra propriamente ideal para recomendar a pessoas que estão a tentar esquecer alguém, porque passa um pouco a ideia de que isso apenas se consegue quando entra outra pessoa na nossa vida que a consegue substituir, não achas?

        Na realidade, a tua menção do filme (500) Dias de Verão para esses casos, apesar de nunca ter sido algo que me tenha ocorrido, parece-me mais apropriada. Isto porque, nesse filme, a recuperação do Tom deveu-se única e exclusivamente àquilo que creio ser o melhor remédio neste tipo de situações: tempo, e dedicação a projectos pessoais. A contagem dos dias é o sinal óbvio da passagem do tempo, e eu sempre interpretei que conseguir esquecer com sucesso a Summer foi obtido apenas quando ele se começou a dedicar mesmo a sério a seguir o seu sonho de arquitectura. Quando desenha no quadro aquela imagem da cidade, e começa a ir às várias empresas buscando uma que o contratasse, esse para mim foi o marco da sua genuína recuperação.

        Por outro lado, o Guia Para um Final Feliz faz sugerir que apenas se consegue isso quando existe outra pessoa para a substituir. Pelo menos no filme, o Pat mantém teimosamente a ideia de que voltará para a Nikki quase até ao final. Pode ser ainda interpretado que foi o projecto da dança que o ajudou a recuperar, mas ele próprio apenas se juntou a isso por causa do acordo com a Tiffany, e não por iniciativa própria, portanto ela tem uma influência muito forte no seu percurso para esquecer a Nikki logo desde a partida. Está certo que o (500) Dias de Verão introduz-nos a personagem Autumn no final, que acaba por ser a responsável por “reiniciar” o contador temporal, mas a mim pareceu-me que, por essa altura, o Tom já tinha nitidamente aceitado a sua situação e adaptado-se bem a ela.

        Pois, quanto à apropriação do estilo de escrita à história, estou impossibilitado de comentar. Porém, para mim, a associação do Pat a um adolescente não me parece ser algo que encaixe mal. Efectivamente, ele demonstra vulnerabilidades, teimosias e imaturidades típicas de um adolescente, provavelmente por influência da sua condição mental. Mas talvez isso apenas cause menos impressão no que toca à sua caracterização durante o filme, possivelmente quando isso se reflecte no estilo de escrita, que acaba por ser o responsável por transmitir a história, não fique tão bem. Mas, na caracterização da personagem em si, mesmo na que foi feita pelo Bradley Cooper, é uma descrição que me faz sentido.

        Ahah por acaso também imaginei logo a Jennifer Lawrence a dizer aquele excerto, o modo como se embrenhou na personagem foi mesmo fenomenal. xD Obrigado pela recomendação do livro, prezá-la-ei. :) Por acaso, já tenho outras leituras planeadas para o Verão, mas se, como dizes, se tratar realmente de uma leitura leve, talvez ainda a encaixe algures pelo meio.

  2. Sim, é mesmo leve! Eu li em menos de uma semana, e com muitas pausas pelo meio, portanto, é mesmo coisa ligeira. :)

    Por acaso não sei se o filme transmite isso mas, de facto, pode parecer que a responsável pela recuperação dele é a Tiffany. Eu acho que o que conta mais no meio disto tudo é o modo como ela o tratou. Ao contrário das outras pessoas, que abordam o Pat como se ele fosse explodir a qualquer momento, ela é desbocada, insulta a Nikki e diz o que lhe apetece, o que provoca o Pat mas também o obriga a reagir. Ela até podia ser só a grande amiga que olhou para ele e disse: “Não, tu não és nenhum tontinho, por isso vais reagir como o adulto que és e deixar-te de tontices.” É dessa parte dela que eu gosto mais. É verdade que eles acabam por ficar juntos no final, mas não penso que essa seja uma parte crucial da história.

    Continuando a fazer a ponte entre o o livro e o 500 days of Summer, comparo a Tiffany mais à irmã mais nova do Tom, que lhe diz sabiamente no final “Next time you look back I really think you should look again.” Eu acho muito difícil passar por uma situação destas sem ter alguém para nos dar uma chapada na cara (não literal, se faz favor xD) e dizer que estamos a ser estúpidos. Porque, 99% das vezes, estamos. E fazemos tempestades em copos de água. E sem irmãs sábias ou Tiffanys despachadas, as coisas são mais difíceis.

    1. Sim, concordo, o modo como a Tiffany o tratou serviu imenso como o “wake-up call” para remover o Pat da fantasia de que regressaria à Nikki algum dia, mas a ideia central nisto tudo, para mim, é precisamente essa – a Tiffany foi o elemento fulcral para que Pat ultrapassasse esta sua ilusão. Como ela acaba por ser, para todos os efeitos, o novo interesse romântico da história, a ideia-base que isso me parece transmitir é que a única maneira de esquecer alguém que nos é especial é através de outro interesse romântico que o substitua. Claro que a personalidade, atitude e maneira de ser geral da personagem são os factores mais relevantes para este seu papel, mas a interpretação-base que tirei foi essa, o que não me parece ser a melhor para ajudar pessoas que estejam a tentar esquecer alguém, porque ficam assim dependentes da presença de outra pessoa para o fazer.

      A irmã mais nova do Tom é, sem dúvida, uma jóia de personagem tristemente subvalorizada, e que me parece ajustar melhor à ideia que estás a transmitir, que existe sempre alguém para nos dar o “wake-up call” de que precisamos para nos tirar da ilusão que alimentamos quando tentamos esquecer alguém, mas o (500) Dias de Verão dá a entender que a pessoa responsável por tal não tem de ser um novo interesse romântico, algo que admiro profundamente, e que penso ser algo em que o Guia Para um Final Feliz falha. Pequeno aparte, a minha peça de sabedoria preferida da irmã continua a ser o “Just because some cute girl likes the same bizarro crap you do, it doesn’t make her your soul mate”, que é dito ainda antes de o Tom e a Summer começarem a namorar, já como uma espécie de presságio. x)

      1. Também gosto muito dessa fala! :)
        Eu percebo por que poderias ser levado a pensar assim mas, de facto, nem me tinha lembrado dessa interpretação. Se calhar é por achar o conceito demasiado… ahum… esquisito? Eu sei que há muita gente que acha que só ultrapassa alguém andando com outra pessoa, mas sempre achei que essa era a ideia mais potencialmente desastrosa de sempre. =P

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