O esquecimento não tem arte

Há uns tempos que este mecanismo intricado a que chamamos memória me fascina. Por vezes, é fantástico a lembrar coisas aleatórias e a fazer sorrir de uma piada parva que nos contaram já nem sabemos bem quando, mas também é capaz de armazenar os momentos mais idiotas, que não queremos lembrar de todo. Dão-nos uma máquina fantástica mas depois não nos dizem como é que a controlamos. Ainda por cima quando ela define a maior parte do nosso resultado, da pessoa inacabada que vamos arrastando todos os dias.

A propósito de lembrar e de ter de esquecer, li isto por aí. Em momentos destes, o mais que se pode pedir é paciência. Muita. Um lote inteiro dela, e mais outro para reserva.

“Vivemos tempos imediatos em que já ninguém aguenta nada. Ninguém aguenta a dor. De cabeça ou do coração. Ninguém aguenta estar triste. Ninguém aguenta estar sozinho. Tomam-se conselhos e comprimidos. Procuram-se escapes e alternativas. Mas a tristeza só há-de passar entristecendo-se. Não se pode esquecer alguém antes de terminar de lembrá-lo. Quem procura evitar o luto, prolonga-o no tempo e desonra-o na alma. A saudade é uma dor que pode passar depois de devidamente doída, devidamente honrada. É uma dor que é preciso aceitar, primeiro, aceitar.

É preciso aceitar esta mágoa, esta moinha que nos despedaça o coração e que nos mói mesmo e que nos dá cabo do juízo. É preciso aceitar o amor e a morte, a separação e a tristeza, a falta de lógica, a falta de justiça, a falta de solução. Quantos problemas do mundo seriam menos pesados se tivessem apenas o peso que têm em si , isto é, se os livrássemos da carga que lhes damos, aceitando que não têm solução. 

Não adianta fugir com o rabo à seringa. Muitas vezes nem há seringa. Nem injecção. Nem remédio. Nem conhecimento certo da doença de que se padece. Muitas vezes só existe a agulha. 

Dizem-nos, para esquecer, para ocupar a cabeça, para trabalhar mais, para distrair a vista, para nos divertirmos mais, mas quanto mais conseguimos fugir, mais temos mais tarde de enfrentar. Fica tudo à nossa espera. Acumula-se-nos tudo na alma, fica tudo desarrumado. 

O esquecimento não tem arte. Os momentos de esquecimento, conseguidos com grande custo, com comprimidos e amigos e livros e copos, pagam-se depois em condoídas lembranças a dobrar. Para esquecer é preciso deixar correr o coração, de lembrança em lembrança, na esperança de ele se cansar.

Miguel Esteves Cardoso, in ‘Último Volume'”

2 thoughts on “O esquecimento não tem arte

  1. Com o receio de obter sobre as tuas secções de comentários um excessivo monopólio (advérbio um pouco estranho de se usar com ‘monopólio’, considera-o uma fraca tentativa a recurso estilístico), direi apenas o seguinte:

    Além das palavras sábias de Miguel Esteves Cardoso, as quais são praticamente impossíveis de se negar a não ser num vão esforço de negação pessoal, gostaria ainda de acrescentar que gostei particularmente de como descreveste aquilo que é, essencialmente, a nossa sensação de impotência perante os funcionamentos gerais do nosso corpo e mente: “Dão-nos uma máquina fantástica mas depois não nos dizem como é que a controlamos”.

    Não é por nada que aquilo que mais se tenta reproduzir, e com contínuos fracassos, é precisamente o humano. Via robótica ou inteligência artificial, invejamos de tal modo a espantosa máquina que é a mente e corpo humano que tentamos a todo o custo reproduzi-la, apenas para nos apercebermos de que esperanças de o conseguir são essencialmente ilusórias.

    Os laivos de memória, as recordações específicas que nos trazem, e o modo e frequência com que surgem são um daqueles eternos mistérios belos sobre a natureza humana. Por vezes, trazem alegria; por vezes, trazem tristeza; no entanto, sempre trouxeram e provavelmente continuarão a trazer verdadeiro fascínio. Tais como imensos outros fenómenos que nos caracterizam como pessoas.

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