“I’m going back home to the West Coast”

Faz hoje um ano que tive uma das conversas mais sérias da minha vida.

É estranho dizê-lo, porque raramente nos lembramos das exactas conversas que nos mudam de algum modo. Falar parece ser tão natural que tendemos a não lhe dar a importância devida. Chegamos mesmo a separar as “palavras” dos “actos”. A típica conversa do “falam, falam, mas não os vejo a fazer nada”. Pois eu acho que, a vários níveis, falar é o acto mais difícil de sempre e pode requerer uma grande dose de coragem.

Lembrar-me do ano passado é quase como olhar para uma fotografia ou um postal de um sítio que é mesmo na rua ao lado da nossa, mas pelo qual, por acaso, nunca passamos no dia-a-dia. Está lá tão perto, mas num universo completamente diferente daquele em que vivemos. Definir estas fronteiras pode parecer muito artificial, mas fazemo-lo todos os dias, ao escolher que caminho percorrer, que pessoas olhar na rua, que relações decidimos valorizar e quais as que mantemos a uma distância segura, sem fazer absolutamente nada a não ser lidar com as coincidências. Estas cercas que erguemos, os nossos limites de “território”, apesar de pouco fixas, são o nosso mecanismo de defesa mais eficiente e mais ingrato. Basta abrir a cancela uma vez e alguém fazer asneira para nunca mais querermos vizinhos no quintal.

E depois há a ideia, essa sim, fácil de dizer, difícil de concretizar, de que temos de partir para a acção, temos de arriscar, temos de tentar porque, se não tentarmos, os “e ses” ficam a pairar-nos na cabeça para sempre. Como um dia alguém me lembrou e Victor Hugo, n’Os Miseráveis, “vende” com tanta convicção.

“Toda a gente há-de ter notado o gosto que têm os gatos de parar e andar a passear entre os dois batentes de uma porta entreaberta.
Quem há aí que não tenha dito a algum gato: «Vamos! Entras ou não entras?»
Do mesmo modo, há homens que num incidente entreaberto diante deles, têm tendência para ficar indecisos entre duas resoluções, com o risco de serem esmagados, se o destino fecha repentinamente a aventura.
Os prudentes em demasia, apesar de gatos ou porque são gatos, correm algumas vezes maior perigo do que os audaciosos.”

Identifico-me com a perspectiva, mas também acho um pouco desleal dizer que é mais fácil correr perigos do que viver com as incertezas. Por mais que nos convençamos do contrário, todos os dias vivemos disfarçados no conforto. Não optamos por caminhos diferentes todos os dias para ir para o trabalho, não experimentamos estilos distintos a cada mês do ano… não nos é natural procurar o mais arriscado porque estamos armados com um mecanismo de sobrevivência, físico e emocional. Temos a tendência para procurar sempre algo que nos seja familiar e que acrescente algo vantajoso ao que sabemos, ou julgamos saber.

Seja qual for o caso, e seja qual for a decisão – porque o estado de inércia também é consequência de uma decisão – aprendi que há coisas que ninguém pode fazer por mim, e uma delas é proteger-me. Ninguém me vai proteger mais do que eu me protegerei a mim própria, nem eu alguma vez conseguirei ser a “cerca” de alguém, porque não está ao meu alcance. Foi preciso percorrer um longo caminho para entender isto, e lutar contra alguns dos meus mais poderosos instintos, para entender que nunca vou poder fazer mais do que aliviar circunstâncias, fortalecer as defesas dos outros, não deixar que caiam, impedir que alguma coisa os derrube. Mas não posso viver por ninguém, e ninguém pode viver por mim, ou entrar em mim, ou extrair de mim algo que me magoou, magoa, talvez continue a magoar, talvez nunca sare, talvez nunca seja suposto sarar.

E não faz mal. Não faz mal estarmos sozinhos com estas sensações, não faz mal sentirmo-nos magoados. Não é vergonha nenhuma, nem é fardo para ninguém a não ser para nós próprios, se percebermos onde é justo desejar a linha. E por mais que ergamos as cercas sozinhos, por alguma razão deixamos alguém entrar. Mesmo que alguém derrube um vaso, ou estrague as miosótis que plantei no jardim com tanto carinho, isso faz parte. Talvez não seja fácil plantá-las novamente e esperar que o desastre não se repita, mas acredito também que contemplar um jardim vazio é bem mais devastador.

E por mais fechada que esteja a cancela por agora, com trancas e tudo (“casa roubada, trancas à porta”), há sempre as conversas de janela e as cartas no correio. Um dia, quando me esquecer das trancas e o deixar aberto, será porque decidi que sei exactamente quem deixar entrar.

E as miosótis que se aguentem, que a Primavera tarda a chegar, mas volta sempre.

3 thoughts on ““I’m going back home to the West Coast”

  1. Concordo plenamente com o que escreveste, Sofia, e identifico-me muito nas tuas palavras.

    Acho curioso o modo como um momento tão marcante para ti não consistiu em mais do que uma conversa. Mas é verdade, falar pode exigir muito de nós, tendo em conta aquilo que pretendemos dizer. Algumas frases têm o impressionante poder de marcar as pessoas de um modo duradouro e estonteante. Mesmo algumas das mais curtas poderão ser as que mudam uma vida para sempre, até um simples “Amo-te”.

    Fico constantemente impressionado também com o modo como somos capazes de mudar tanto e em tão pouco tempo, daí que olhar para como éramos no passado soe exactamente ao que dizes, um síto simultaneamente “tão perto e tão longe”, uma casa ao lado onde não entramos. Somos nós próprios os responsáveis por nos distanciarmos da pessoa que éramos no passado, mas efectivamente fazemo-lo tão naturalmente que mal nos damos conta de que o fazemos.

    Passar do falar à acção é o perigo constante. É o dilema eterno que oscila entre o medo de falhanço, e o pavor da incerteza (os tramados “e se”s). Apesar de concordar que falar exige uma coragem desvalorizada, não é por isso que creio que se deva depreciar a bravura de realmente agir.

    Tal como dizes, estamos sempre a viver disfarçados no conforto. Criamos a nossa própria bolha onde nos envolvemos, o nosso mundo marcado pelos nossos gostos e prazeres, e pelas decisões e tendências que nos são familiares. Essencialmente, estabelecemos uma rotina à qual nos habituamos, que nos é aprazível, e tendemos a mantermo-nos nela, sem arriscar fugir dela, com receio pelo modo como algo de diferente nos poderá afectar.

    Porém, queria ainda acrescentar uma pequena questão: Até que ponto esta nossa bolha nos chega? Até quando isto dura até uma pessoa se sentir aprisionada no seu próprio mundo? Claro, quando o definimos, fazemo-lo de modo a que estejamos sempre rodeado pelo que nos é familiar e agradável, mas não chegará a um ponto onde nos sentiremos limitados pela rotina inalterada? E aí, então, somos empurrados a explorar um pouco o mundo envolvente e “sair da nossa zona de conforto”. É o ponto em que a incerteza dos “e se”s se começa a sobrepor ao receio de perder o conforto da nossa bolha.

    Compreendo bem o que queres dizer no que toca à responsabilidade que temos para com nós mesmos. É verdade, não existe ninguém mais responsável por nos protegermos, por saber gerir a nossa dor e mágoa e por saber lidar com as nossas próprias emoções do que nós próprios. Acho que uma parte fundamental do nosso crescimento como pessoa é saber estar sozinho.

    No entanto, por mais que teimosamente o tentemos impedir, e por mais que nos dediquemos a construir as nossas cercas, haverá sempre alguém que deixamos entrar. Por vezes, pode ser que corra mal, e essa pessoa estrague por completo o nosso jardim. Porém, pode também acontecer que essa pessoa não só o contemple, mas até ajude a construí-lo. Será sempre um risco.

    O ser humano não foi feito para estar sozinho. Acabamos por nos auto-disciplinar a aprender muitas coisas e a amadurecer sozinhos, mas creio que inevitavelmente acabamos sempre por deixar alguém entrar no nosso jardim, estejamos ou não conscientes disso.

    Queria só ainda apontar um pequeno pormenor quanto à tua última frase: “quando me esquecer das trancas e o deixar aberto, será porque decidi que sei exactamente quem deixar entrar”. Será mesmo? Geralmente, o ‘esquecer’ implica uma ausência de motivo a priori. O que eu acho é que isto indica que algum dia, inadvertidamente ou inconscientemente, acabamos sempre por deixar entrar alguém no nosso jardim simplesmente por baixarmos as defesas (“esquecer das trancas”). E acho que isso é normal. Tal como uma pessoa que acabou de ser assaltada passa os próximos meses construindo hábitos muito mais cautelosos, aos poucos e poucos, simplesmente por força de hábito, regressa aos seus costumes antigos, o mesmo ocorre connosco. Por mais que teimemos em manter as cercas e trancar as portas, algum dia ou outro esquecer-nos-emos e alguém fará uso disso… para o melhor ou para o pior.

    Espero que me perdoes esta minha muralha de texto, e que continues a partilhar por cá as tuas ;) ***

    1. Não me importo nada com o tamanho das tuas respostas! Se isso é sinal de que os meus posts servem para alguma coisa, quanto mais não seja para alguém não se sentir assim tão sozinho com os seus sentimentos, go ahead!

      Quanto à tua última observação, é verdade que eu tenho uma tendência para acreditar que sou eu que decido quem entra ou não, quando e como. Na verdade, sei que o meu controlo racional sobre isso é muito pouco na maioria das situações. Aliás, se tivesse a capacidade de usar um filtro racional no que toca a essas decisões, tenho a certeza que não correria tantos riscos. Mas também não teria tanta piada, pois não?

      1. Ahah you’re far too kind. x) Sim, sem dúvida, creio que existe muito nestes teus posts com o qual me identifico, e geralmente deixo-me levar um pouco pelo entusiasmo quando tal ocorre. :P Definitivamente que são sentimentos universais, mas é sempre aprazível ver a sua evidente presença noutra pessoa reflectir um pouco de nós. ;) Citando Billy Joel, “Yes, we’re sharing a drink we call loneliness. But it’s better than drinking alone.”

        Pois, acho que a dualidade que referes é a típica racionalidade/emoções. Quantos de nós não daríamos tudo para conseguir ter algum tipo de controlo decisivo sobre como lidamos com as situações no que toca a relações interpessoais e outras vertentes emocionais? Mas tal não passa de uma ilusão, essencialmente os nossos sentimentos e a nossa razão são dois lados distintos, geralmente opostos. Por um lado, a predominância da emoção leva a que nos arrisquemos mais, que é mesmo a única maneira de conseguir algo de extraordinário (já diz o provérbio clássico, “quem não arrisca não petisca”) e é também, como dizes, aquilo que verdadeiramente “dá piada à vida”. x) Por outro lado, a segurança de saber que teríamos alguma avaliação mais cuidada e lógica das nossas decisões quando nos encontramos perante este tipo de situações ser-nos-ia igualmente agradável…

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