The Stops – Elbow

Lembro-me de, há uns meses atrás, pensar que a melhor maneira de nos apaixonarmos por uma cidade era apaixonarmo-nos nela. Estava sozinha no autocarro, a ouvir uma música qualquer que me inspirava na altura, e sorri para a paisagem de prédios e alcatrão. Não havia nada de particularmente bonito à minha frente. As árvores despidas, as pessoas a fugir da chuva, uma parede grafitada com palavras insultuosas, poças de água a transformarem-se em pequenas lagoas. E, no entanto, os reflexos pareciam-me tão harmoniosos que ouviria música sem que ela estivesse a dar. Um verdadeiro abismo dos sentidos e um engano tão delicioso quanto grande.

Não percebi o quão encantado era o mundo transformado aos meus olhos, porque acreditava que o encanto sempre tinha estado fora de mim.

Fiz a mesma viagem há uns dias, à espera de me sentir embrulhada pela nostalgia, mas não me senti nem um bocadinho nostálgica. Foi mais como se o tempo não tivesse passado, como se o percurso sempre tivesse sido o mesmo e eu só tivesse ido de férias por momentos. Os charcos lá continuam, as pessoas desiludidas com o mundo prosseguem o seu caminho e os vidros espelhados, manchados pelas gotas de chuva, não param de murmurar a sua tímida canção.

E eu posso lá voltar, de vez em quando. Não vou sentir a mesma coisa, mas vou estar lá perto outra vez, a desafiar o tecido do tempo. Porque, ao mesmo tempo que quero seguir o meu caminho, não me quero esquecer das coisas cândidas e do encanto perante os meus olhos. Não quero apagar os contornos desse regozijo, o toque leve de um tranquilo suspiro do mundo.

Letra:

I can’t undo the day
It won’t go, won’t go under the rug
I pull out the stops
And you, you pull the plug

These are sober days and I know it can’t be
But I’ll miss you the way you miss the sea

Just (Don’t look down) Keep staring like you’ve never seen the stars
(Don’t look down) If you need me to remind you who you are
(Don’t look down) Little blossom there’s the shiniest soul
(Oh) Just behind those eyes

No longer my affair
Well I can’t go there just yet
So I’ve come to love and trust those friends
That are holding your net

Falling off used to mean
Maybe grazing a knee
And I’ll miss you the way you miss the sea

Just (don’t look down) Keep staring like you’ve never seen the stars
(Don’t look down) If you need me to remind you who you are
(Don’t look down) Little blossom there’s the shiniest soul
(Oh) Just behind those eyes

While I won’t second guess
What you’re thinking of me
I will miss you the way you miss the sea

One thought on “The Stops – Elbow

  1. Gosto muito do tom distintamente romântico que marcam as tuas entradas, Sofia. :-) Esta em particular tem algo de muito bonito, se bem que talvez seja a minha tonta faceta romântica a querer revelar a sua existência.

    Acho extremamente tocante a tua frase onde referes que “a melhor maneira de nos apaixonarmos por uma cidade é apaixonarmo-nos nela”. É uma perspetiva muito interessante. Realmente, será que os nossos sentimentos perante uma cidade, um local ou uma região estão inevitavelmente ligados aos sentimentos que nos marcaram durante a nossa estadia nela, e não necessariamente os sentimentos que esta própria cidade, pelas suas caraterísticas, pela sua beleza, ou pela sua própria arquitetura e paisagem, desperta diretamente em nós?

    Devo dizer que me identifico muito com o que dizes, e estou muito inclinado a concordar com essa tua frase, precisamente por causa da surpreendentemente ausente nostalgia que deveria vir associada ao revisitar destas paisagens.

    Há locais que não mudam. Têm o mesmo retrato social, o mesmo ambiente paisagístico, a mesma mistura de sons e cores, porém não surte em nós o mesmo encanto que outrora surtiu. E isso é talvez o mais evidente sinal de que este encanto, esta charmosa beleza, e o deleite que os locais têm a capacidade de fazer surgir em nós estão inerentemente dependentes das vivências que passamos neles, do nosso estado de espírito e, essencialmente, dos sentimentos que se apoderavam de nós aquando desta estadia. Não é mais que uma mera associação mental. Se sentir uma enorme felicidade em Lisboa, então esta parecer-me-á um local extraordinariamente encantador nessa altura. Porém, mais tarde, o mesmo pode deixar de se verificar.

    No entanto, de certo modo, isso não traz um maior valor a esses sentimentos? Quando te sentes deleitada pelos encantos de um retrato paisagístico, não sentes que isso poderá ser fugaz e efémero? E, por isso mesmo, muito mais valioso? É como o ouro, que é precioso por ser raro. O mesmo ocorre com este tipo de reações emocionais, que eu tento agarrar com muito mais vigor quando surgem, ao saber que rapidamente poderão desaparecer.

    Desculpa-me a extensa resposta, mas tenho o infeliz hábito de me deixar levar quando falo de algo que me cativa. :P Espero que continues a escrever mais por aqui. Além de, suponho eu, te fazer sentir melhor pela libertação que fornece, é um igual, possivelmente superior, regozijo a meros seguidores como eu. ;)

    Beijinhos***

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