Nascer do sol

      Miosótis regressava a casa todos os dias às seis da madrugada e corria para ir ver o sol nascer do alto da encosta. Não conseguia dizer quantos amanheceres já tinha visto desde que nascera, mas sabia que eram 5475 desde que ficara sozinha no vale. Esse era, de resto, o único número que guardava na memória e o único que lhe importava particularmente. Se lhe perguntassem quantas janelas tem a sua pequenina casa, ou quantas moedas tem no seu mealheiro, ou quantas roupas estão penduradas no armário, encolheria os ombros. Era como se não soubesse contar essas coisas, como se o seu cérebro as rejeitasse automaticamente.
Como eu estava a dizer, Miosótis regressava todos os dias às seis da madrugada mas, ao 5476º amanhecer, a encosta ficou sozinha e o sol nasceu sem ser recebido. Foram precisas mais quatro horas para que a pequenina porta de sua casa fosse aberta, o pássaro piasse na cozinha, a rã coachasse no lago da frente e o gato ronronasse no sofá da sala. As flores de lua já estavam todas fechadas e a sombra do salgueiro cobria parte do caminho de terra batida, cheio de ervas daninhas a crescer na berma.
Miosótis chegara atrasada a casa porque, pela primeira vez, tinha-se perdido no vale que conhecia como a palma da sua mão, tal era o estado labiríntico em que sentia a sua mente. Sentia-se demasiado intrigada, por demais inquieta para conseguir orientar-se e, como não sabia ler as placas da rua e estas não era propriamente abundantes, nada feito. E, de resto, o vale era demasiado teimoso para facilitar a vida às pessoas. É provável que até se tenha divertido a ver Miosótis completamente desorientada, de um lado para o outro, a tropeçar em troncos de árvores e a dar voltas aos mesmos sítios vezes sem conta. Era uma espécie de vingança pessoal: finalmente poderia recuperar o poder que tinha sobre todos os outros. A facilidade com que Miosótis entrava e saía de lá todos os dias, como se fosse a coisa mais fácil do mundo, era como que um insulto aos seus poderes naturais, um sinal de fraqueza que o fazia corar. Mas Miosótis era capaz de fazer corar muita gente.
De uma coisa podemos ter a certeza: Miosótis era tudo menos uma pessoa normal. Tenho até algumas dúvidas de que fosse uma pessoa de todo, embora fosse a criatura com mais humanidade, pelo menos a que temos como ideal, que alguma vez conheci. Para além disso, era incrivelmente talentosa de um modo quase raro. Ainda assim, era uma solitária. A ideia de estar presa a alguém era-lhe estranha, embora gostasse muito de pessoas. Achava que o facto de serem todas tão diferentes e com tantas histórias diversas era uma das coisas mais mágicas do mundo. Um mundo cheio de mundos encerrados em caixinhas, pensava ela.
As noites de Miosótis eram quase sempre passadas em cidades. Não conhecia as suas silhuetas iluminadas pelo sol, porque nunca ficara para ver o que acontecia quando elas se vestiam de raios luminosos. A noite, no entanto, era mágica, misteriosa e silenciosa. A luz da lua confundia-se com os fios de prata dos seus longos cabelos e a sua tez pálida de neve.
Todas as noites, Miosótis partia à procura do quarto onde uma mente inquieta chamava o sono, mas este não ouvia. Então, esperava que as luzes de casa se apagassem e entrava levemente pela janela como uma brisa e ia sentar-se à beira da cama. Havia quem ficasse assustado, quem pensasse que estava a sonhar e até quem se julgasse maluquinho. Mas, à segunda visita, Miosótis não só era bem recebida como era esperada.

      – Boa noite, Artur. – sussurrou ela, mal chegou ao quarto do menino.
– Estava a ver que nunca mais chegavas! – queixou-se ele, cheio de energia. – A mamã Maria já me mandou dormir há quase meia hora.
– Como sabes há quanto tempo foi?
– Aprendi a ver as horas. – anunciou, orgulhoso. – Vê.
Exibiu um pequeno relógio colorido que tinha no braço e sorriu com todos os dentes que tinha e até com aqueles que lhe faltavam. Depois, deitou a cabeça morena no colo de Miosótis e aguardou que ela começasse a história. Ela afagou carinhosamente o cabelo do menino e começou.

(continua…)

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