Casa das Conchas

Hoje preciso de voltar ao meu lugar seguro… à casa junto ao mar, com as baunilhas, o baloiço, as paredes de tijolo e o espanta-espíritos no alpendre. Consigo vê-la tão bem que me custa acreditar que não seja real, que não exista algures por aí, junto a uma praia qualquer, e que está só à espera que eu chegue para a tornar num lar. É estúpido, não é? Que obcessão mais parva com uma casa.
Já mencionei que nunca lá entrei? Não, nunca o fiz. Já tentei, mas acabo por me perder. Acho que é ela a dizer-me que é muito cedo para entrar, que podia perturbar a calma que habita lá dentro. Eu não me importo. Basta-me ter um vislumbre das cortinas e ouvir a porta a bater. Por enquanto, estou bem cá fora, a calcar a relva ou a andar de baloiço. Esqueço-me sempre de fechar o portão. Acho que é porque tenho a consciência de que não posso ficar por muito tempo. Nunca fiquei tempo suficiente para ver o autocarro passar, as pessoas a sair, o dia a escurecer.
Pensei que lhe devia chamar Casa das Conchas. Eu sei que não é muito original, mas também não é escolhido à toa. Pouco tempo depois de o meu avô morrer, tive um sonho estranho em que alguém me levava até ele de carro, até a um café com a tinta azul a descascar e umas mesas de ferro muito velhas. Sentei-me muito quieta e compenetrada, à espera que ele dissesse alguma coisa, mas não o fez. Levou a mão ao bolso das calças – estava vestido com umas calças beges e a camisa de manga curta branca com um bolso onde ele guardava o maço de tabaco – e tirou de lá uma coisa que tapou com a mão até a pousar na mesa. Era uma concha, branca, com protuberâncias na vertical. Acho que me sorriu. Não me lembro se lhe sorri de volta. Peguei na concha, fechei-a na minha mão e, quando levantei a cabeça para lhe perguntar o que significava, ele já lá não estava. Abri a mão para verificar se a concha ainda lá estava e constatei que sim.
Durante algum tempo andei com uma concha ao pescoço, que tinha recolhido na praia e que me parecera a que vira no sonho. Acabei por deixar de a usar. Não era aquela. Não era literal. “Um dia vais perceber.” Lembro-me agora que, no sonho, ele me dizia isso. A única pessoa a quem contei foi a Filipa. Não sei se ela terá alguma ideia disso. Provavelmente não. Estas coisas são difíceis de explicar sem que pareçamos um bocadinho maluquinhos.
Hoje tropecei com o significado que as conchas têm para os celtas. Algo que tem a ver com protecção e pureza, um despertar, uma casa para o amor. Eu sei que isto pode parecer tudo uma treta mas, para mim, significa alguma coisa.
Por isso, não é por acaso que acho que Casa das Conchas é o nome perfeito. Nem é por acaso que ainda não consigo entrar. Por enquanto, só conheço a relva, as paredes, o alpendre e as trepadeiras… Por enquanto, só conheço o revestimento. Não percebo ainda o que se passa lá dentro, provavelmente porque ainda não estou preparada para isso, ou porque ainda não o sei preencher. Tenho de me contentar em esperar cá fora, a baloiçar e a observar as páginas do livro a esvoaçarem de vez em quando, sem que a fita de cabelo vermelho se mova. E, curiosamente, enquanto aqui estou, sinto-me estranhamente calma, serena, como se fizesse sentido estar aqui sozinha, a encaixar sonhos em sonhos. O facto de ela estar ali, sólida, a olhar para mim, parece-me prova suficiente de que um dia vou mesmo perceber.
Um dia vou conhecer o interior da Casa das Conchas e fazer de tudo para o conservar puro, feliz, especial. Nosso.

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