O fenómeno Adele e dos corações partidos

Acho que os aeroportos são excelentes sítios para se dar largas à imaginação, não só porque são sítios de passagem de milhares de pessoas e de histórias interessantes, como, e sobretudo, porque não têm wi-fi gratuito e as lojas, para além de escassas, são demasiado caras. Para além disso, reconheço que dá um certo ar de escritora, ou de pessoa ocupada que não pode largar os papéis ou o computador para tratar dos negócios, e da bolsa, e dessas coisas todas que me passam ao lado. Tudo para dizer que isto foi escrito no aeroporto, enquanto esperava pelo vôo de regresso aos Açores.

A propósito do post anterior, lembrei-me de mais um exemplo de que, de uma maneira ou de outra, estamos unidos pelos nossos problemas.

É praticamente impossível alguém ter passado o ano de 2011 inteiro no mundo ocidental sem ter ouvido pelo menos uma vez uma das músicas do novo álbum da Adele, 21. Sempre gostei dela. Sob o risco de estar a soar a hipster, gostava dela já quando tinha lançado o álbum 19, uns anitos antes. A nível musical, não acho que os dois álbuns sejam assim tão diferentes. A voz dela está divina nos dois, as melodias são de uma pop bem feita, como antes, e as letras, apesar de não serem extraordinárias obras de poesia, têm uma métrica adequada e encaixam com facilidade nas canções. De facto, musicalmente falando, as diferenças não são muitas. A grande diferença está no tom, ou melhor, nos temas dos dois álbuns.

O primeiro reflecte uma Adele sozinha mas com expectativas. As canções são hinos aos primeiros amores, à inocência dos sonhos e às dores de crescimento que são necessárias pelo caminho. Ainda assim, está recheado de esperança, de um sentimento aconchegante de que, apesar de tudo, continua “chasing pavements, even if it leads nowhere”.

O segundo tem um registo completamente diferente. Tirando a “Rumour as it”, todas as músicas são acompanhadas por uma amargura peganhenta, quase viral, que faz até os mais descrentes querer gritar para os seus antigos amores “We could have had it all, you bastard!” Não há esperança, nem inocência, nem “eu não sei onde vou parar, mas vou continuar a andar na mesma”. Há revolta, gritos, choros e desilusão. Assim é 21.

Ora, estando os dois igualmente bem feitos a nível musical, a conclusão a que chego é que a principal razão para este último ter tido mais sucesso do que o álbum de estreia é justamente o tema estar mais perto das pessoas. Isso quer dizer que o homem, ou mulher, comum tem mais facilidade em identificar-se com este sentimento de desilusão e de revolta em relação ao amor do que ao de inocência e esperança. Lembramo-nos melhor de nos sentirmos mal, magoados, desiludidos com a pessoa que amámos, do que dos primeiros momentos fantásticos, em que o mundo todo parece sorrir-nos e a pessoa parece perfeita até nas suas imperfeições.

Reconheço que sou bastante instável neste assunto. Acho que é por, de certa forma, achar que o amor vem sempre com sofrimento, de uma maneira ou de outra. Há sempre qualquer coisa de que temos de abdicar, há sempre bagagem emocional dos dois lados que pode pesar nos nossos ombros e acabar por nos levar a ceder. Não sei se será mais fácil estar sozinha. Mas parece que todo o mundo tem tanta dificuldade quanto eu em esquecer o que arriscamos quando decidimos partilhar a vida com alguém.

Letra:
So this is how the story went
I met someone by accident
who blew me away
who blew me away

It was in the darkest of my days
When you took my sorrow and you took my pain
And buried them away, you buried them away

And I wish I could lay down beside you
When the day is done
And wake up to your face against the morning sun
But like everything I’ve ever known
you’ll disappear one day
So I’ll spend my whole life hiding my heart away

I dropped you off at the train station
And put a kiss on top of your head
I watched you wave
I watched you wave
Then I went on home to my skyscrapers
Neon lights and waiting papers
That I call home
I call that home

I wish I could lay down beside you
When the day is done
And wake up to your face against the morning sun
But like everything I’ve ever known
You’ll disappear one day
So I’ll spend my whole life hiding my heart away
Away

I woke up feeling heavy hearted
I’m going back to where I started
The morning rain
The morning rain
And though I wish that you were here
On that same old road that brought me here
Is calling me home
Is calling me home

I wish I could lay down beside you
When the day is done
And wake up to your face against the morning sun
But like everything I’ve ever known
You’ll disappear someday
So I’ll spend my whole life hiding my heart away
I can’t spend my whole life hiding my heart
away

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