Amor e as minhas teorias nas aulas de Media Interactivos

Toda a minha vida fui contaminada por uma dose elevada de histórias de amor.

Não me parece que empregar aqui o termo “contaminação” resulte nalgum tipo de exagero. Ninguém mo deu a escolher; nunca, em fase alguma da minha vida, me lembro de me terem poupado dos romances da Disney, das histórias clássicas dos contos de fadas ou dos desenhos animados de Sábado de manhã. Mas eu própria não tenho uma memória que seja de algum momento em que tenha recusado estas histórias.

Curiosamente, uma das poucas memórias que tenho da minha infância é a de um casamento em que apanhei o bouquet da noiva. E por que é que nunca mais me esqueci? Porque não me deixaram ficar com ele. Na altura, pensei que o destino me estivesse a mandar qualquer tipo de mensagem perversa. Bom sinal não poderia ser. É claro que nunca pensei que, bem vistas as coisas, tinha sido o próprio destino, o acaso, o que lhe quiserem chamar, a pôr o bouquet nas minhas mãos e as pessoas as responsáveis por ele me ter sido tirado. Isto muda completamente o caso.

Não me parece, no entanto, que este episódio tenha influenciado assim tanto a minha visão romântica da vida. Cresci com pais que se adoram, numa família cheia de histórias de casamentos de sucesso, e isso sempre me fez pensar que as coisas eram fáceis; bastava um bocadinho de esforço para que resultassem. Era quase como se a vida só começasse quando se encontrasse alguém com quem a partilhar. Aos 14 anos, estava completamente convencida de que ia encontrar uma alma gémea aos 20 anos, casar aos 25 e ter filhos aos 28. Era quase como se as coisas tivessem uma data de expiração, ou como se bastasse decidir que era assim, e assim seria. Mais ou menos como ter a garantia de que, se estudar para um exame, vou ter boa nota. Acabei por aprender que nem isso é garantido.

Podia dizer que é com surpresa que chego aos 20 anos e vejo todo o meu paradigma, cuidadosamente construído aos 14, cair por terra; mas estaria a mentir. Não acordei um dia a pensar: “estava completamente errada”. Aliás, nem tenho a certeza se estava. Agora penso que é uma ideia naive, mas e se realmente chegar amanhã à conclusão que encontrei o amor da minha vida, acabarmos por nos casar aos 25 e ter filhos aos 28? A probabilidade de isso acontecer é a mesma de não acontecer, de todo. E se, à minha volta, vejo histórias de gente que conheceu o seu companheiro no liceu, ou na faculdade, e ainda hoje daria tudo por ele, testemunho também desastres amorosos, corações partidos e traumas, talvez na mesma proporção. Se antes só via histórias com final feliz, hoje vejo uma diversidade enorme de afectos, de modos de se viver em conjunto ou em separado, e uma multiplicidade de razões para as pessoas tomarem as decisões que tomam. É um mundo inteiro que se abre à minha frente e que escapa do meu controlo. Não há formas certas de se gostar de uma pessoa, nem uma só maneira de o fazer. São tantas as coisas de que temos de abdicar, e são tantas as outras que a outra pessoa nos oferece, que este se torna um jogo em que é praticamente impossível apurar todas as variáveis que devem ser tidas em conta. O emaranhado é tão complexo e os laços tão diversos que me parece absurdo um dia ter pensado que bastava que duas pessoas gostassem uma da outra para estarem juntas. Não só isso não é suficiente como os restantes factores podem pesar muito mais na balança do que isso.

Por essa exacta razão, acho que o amor, tal como qualquer outra coisa nas nossas vidas, acaba por ser fruto das nossas escolhas, por vezes as que nos parecem mais insignificantes. É claro que essas escolhas são altamente limitadas pela vida que levamos, as experiências que tivemos, as pessoas com quem nos damos; enfim, todo esse conjunto de coisas de que cada um de nós é feito. Acho, por isso, que a história do rapaz que conhece a rapariga (ou da rapariga que conhece a rapariga, ou rapaz que conhece rapaz) é só uma parte, ou melhor, está colocada numa pilha de coisas que pode desmoronar e mudar o paradigma todo a qualquer instante. Assim, como é que consigo aceitar que nascemos e, desde esse momento, estamos destinados a uma pessoa em particular?

Isto diz directamente respeito à questão do livre-arbítrio: se eu acreditar que a minha vida já está traçada, é mais fácil assumir que essa pessoa me estará destinada e a minha função é simplesmente encontrá-la. E acreditar que somos marionetas é acreditar que não somos nós que nos definimos, mas a pessoa que nos segura os fios. Não consigo aceitar isso, como não consigo aceitar que estou a seguir um destino, como não consigo aceitar que haja uma única pessoa no universo que me está destinada. Acredito, sim, que é como que de uma rede se tratasse: uma grande rede humana, com fios flexíveis que se ligam a outros de acordo com o movimentos dos centros, que são as nossas escolhas. Assim, acho que, nas várias fases das nossas vidas, encontramos pessoas diferentes e é completamente natural que nos associemos a elas de um modo muito profundo e que, passado algum tempo, com a mudança do centro, os fios mudem, a rede se ligue de um modo diferente e já não faça sentido as pessoas continuarem juntas. Acredito também que, quando duas pessoas têm uma ligação de tal modo forte, mesmo que um centro mude, o outro muda com ele sem ter de fazer um esforço que implique perder o seu próprio livre arbítrio, entregando os seus fios ao outro centro. O que estou a dizer é que acho que, quando esta ligação se dá, os dois centros tornam-se num centro único e maior, em que nenhum deles perde a sua individualidade porque, na verdade, ela funciona muito bem com a individualidade do outro. É como o nosso corpo: tem vários componentes, mas todos juntos formam a possibilidade de nos manter vivos.

Deixei, por isso, de acreditar que é do destino, ou da sorte, que dependem as nossas relações. É claro que, como em tudo, é preciso ter um bocadinho de sorte, mas há outras coisas com muito mais peso no processo. Atenção que isto não significa que temos tudo sob controle. É verdade que depende das nossas escolhas mas, quando as tomamos, muitas vezes, se não a maioria das vezes, não fazemos ideia de onde elas nos vão levar. Faz tudo parte de um mundo cheio de possibilidades, cheio de variáveis em constante contacto e em constante mutação.

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