Uma review do “Amanhecer – Parte 1”

Acabei de voltar do cinema. Fui ver o penúltimo filme da saga Twilight, o Amanhecer, com toda a fé de que ia provocar algo mais em mim do que somente riso. Realmente, não me ri muito mas, em muitas ocasiões, não sei por quem me senti pior: se pelas pessoas que têm o seu nome marcado naquele trabalho, se por mim, que dei 5€ para o ir ver.

Antes de mais, preciso de dizer, e sublinhar, que não sou crítica de cinema, nem tampouco tenho um curso exclusivamente direcionado para isso. No entanto, tenho os conhecimentos suficientes para perceber que o que acabei de ver não é coisa que se apresente à legião de fãs que a saga recolheu, ou a qualquer outra pessoa. Aliás, ouvi, mal saí da sala, a pessoa que estava ao meu lado dizer: “Isto foi mau, é o mais fraquinho deles todos.” Senti-me melhor por mais alguém o reconhecer.

Quero também acrescentar que li os livros, vi os outros filmes e, em grande parte das vezes, até tenho defendido a reputação desta saga, não sei se por gostar de causas perdidas, se por me irritar o ódio sem fundamento. “São fases”, repito eu vezes sem conta. No entanto, parece que, desta vez, a equipa pensou: “Ai é? Temos a fama? Então mais vale termos o proveito.”

Por onde começar? No geral, acho que foi um disparate terem dividido a história em dois. Foi uma mera estratégia de marketing, e uma lamentável imitação do que foi feito com pés e cabeça em relação ao Harry Potter. Isso reflecte-se no resultado final, que ficou com pouco ritmo, com uma série de momentos mortos, diálogos e transições que se dispensavam.

E por falar em transições… Se em determinadas situações se tornavam repetitivas – acho que nunca vi a floresta americana tantas vezes – noutras, eram completamente confusas. Logo no início, passamos da perspectiva da atribulada lua-de-mel no Brasil para o pensamento do Jacob, em La Push, com uma brusquidão imperdoável. Quase não se entende o que se está a ver.

A própria lua-de-mel tem uma série de erros de raccord. Num dia vemos a cama toda destruída, noutro ela já está refeita e noutro ainda está destruída outra vez, para ser arranjada pelos empregados brasileiros. Vemos também a Bella a ver a casa onde vão ficar e a voltar ao quarto, no qual o Edward aparece quase que do nada. Está bem que o rapaz é vampiro, mas caramba, não atravessa paredes.

E, já que estamos a falar da lua-de-mel, mais vale falar já das cenas mais sensuais descritas no livro. Há certas cenas que supostamente deixam transparecer a ansiedade da Bella que, ainda por cima, é virgem, que têm a intenção de ser cómicas mas que se ficam pelo extremamente estranho e desconfortável. Em inglês, descreve-se numa só palavra: awkward. Para além de que as cenas supostamente escaldantes e mais fortes parecem ter sido feitas para crianças. Se bem que entendo que eles não se podiam esticar muito. Afinal, o público alvo do Twilight não é propriamente adulto. Talvez seja a minha mente a provar que é perversa, mas acho que podiam estar um bocadinho mais apaixonantes, pelo menos. E, por favor, ter uma cena em que ela basicamente chora e lhe implora por sexo? A sério, roça o ridículo…

Como sempre, a actuação da Kristen Stewart ajuda pouco. Contudo, tenho de lhe dar algum crédito. Pareceu-me um pouco menos estática. Sim, achei imperdoável que estivesse com cara de enjoada quando caminhava para o altar mas, com alguma imaginação, conseguimos adivinhar que o que ela quer representar são nervos. O próprio Robert Pattinson, que já vi em papéis bem feitos, está mediano. Não que o papel desse margem para muito mais, verdade seja dita, mas não consigo evitar sentir que esteve lá só a cumprir o seu dever, e pronto.

Como uma pessoa que leu o livro,  posso dizer que esta não era uma história muito fácil de adaptar a filme, de facto, mas parece-me que as escolhas foram as mais fáceis. As soluções arranjadas podiam ter sido muito mais criativas e arrojadas. As cenas dos lobos, por exemplo, parecem cenas de desenhos animados mal feitas. A dinâmica da alcateia está mal explicada. As cenas das lutas entre os vampiros e os lobisomens estão escuras, vêem-se mal (e eu até estava de óculos) e têm planos pouco interessantes. Uma vez mais, não têm ritmo, são forçadas.

No final de contas, fica-se com a sensação de que o filme foi feita às partes e que depois se juntou tudo sem grande critério. Não há linha de continuidade, não há organização. Houve um grande desleixo. Tendo a consciência de quem ia ver o filme, parece que decidiram que não valia a pena o esforço, que inovar ou manter sequer um determinado nível não era necessário.

É claro que há coisas bem feitas. A caracterização da Kristen Stewart, por exemplo. Ouvi alguém exclamar atrás de mim, a certa altura: “Bolas, ela está mesmo feia…” E sim, parecia mesmo muito doente. Isso não passou despercebido.

As músicas escolhidas, desde Aqualung a Imperial Mammoth, também salvavam um bocado a honra da equipa que, assuma-se, sempre teve mérito na escolha da soundtrack. Ainda assim, acho que até isso piorou um pouquinho. Se antes a banda sonora estava recheada de bandas alternativas, agora tem Bruno Mars e Christina Perri à mistura.

Foi triste ver este barco a afundar-se mesmo na sua etapa final. Receio que os meus dias de advogada do diabo, a tentar defender alguma coisa nesta saga, chegaram ao fim. Apresentar um filme assim a um público, ainda por cima tão vasto, com sucesso de bilheteira garantido sem ter de se esforçar sequer, não tem desculpa.

3 thoughts on “Uma review do “Amanhecer – Parte 1”

  1. Não és crítica de cinema mas podias bem ser, eu nunca ia reparar em tantos pormenores.
    Ah. e pelo que ouvi dizer o lobisomem (acho que é esse) não tirou a camisola. Não há nenhum filme em que ele não o faça. Deve ter sido mais um lapso :b

    1. Ahah, é capaz, confesso que não reparei nisso. xD Mas realmente saí com uma sensação de frustração da sala de cinema… Como é que há filmes fantásticos que mal são conhecidos e coisas assim fazem um lucro tremendo?

      1. É cinema “pop”, como a música.
        Até podem haver obras muito melhores, mas estas são mais fáceis de compreender.
        Para além disso têm a imagem apelativa (actores e actrizes conhecidos e bem parecidos e tal), embora isso não devesse servir como desculpa para se esquecerem da parte do conteúdo.

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