Saíste-me cá uma personagem!

Ao longo da vida, vamos todos sendo influenciados por determinadas personagens pelas mais variadas razões. A história de vida delas pode ser parecida com a nossa. A sua personalidade pode ser parecida com aquela que gostaríamos de ter. A sua maneira de pensar pode ser polémica e interessante. Seja como for, acredito que elas são parte daquilo que nós somos. Por isso mesmo, e para as poder vir recordar sempre que me apetecer, aqui ficam algumas que me marcaram.

Luna Lovegood

Luna Lovegood é uma personagem criada por J.K.Rowling e existe no universo Harry Potter.

Luna aparece pela primeira vez no quinto livro de Harry Potter – Harry Potter e a Ordem de Fénix, para quem não está familiarizado com a saga – para se juntar ao E.D. – Exército de Dumbledore -, organização fundada para lidar contra a tirania da nova directora, Dolores Umbrigde (que, já agora, se eu tivesse uma lista das personagens mais detestáveis de todos os tempos, ela constaria dela), mandada à escola pelo governo para impor os “bons costumes”. Costumam chamá-la de Loony Lovegood (loony de maluquinha) pela sua maneira controversa de pensar, estranha forma de vestir e de se arranjar no geral. Para a maioria das pessoas, Luna parece vir de um planeta completamente diferente e, diga-se de passagem, em plena escola de feitiçaria, com pássaros a serem transfigurafos em copos de vidro e mandrágoras a gritar nas estufas em dias normais, parece ser um verdadeiro desafio ser considerado invulgar ou uma carta fora do baralho. Mas Luna demonstra-se capaz de ultrapassar esses limites e de surpreender sempre todos com as suas ideias e a sua maneira de estar na vida.
Órfã de mãe, depois de esta ter falecido na sequência de uma perigosa experiência em sua casa, vive com o pai, um homem também invulgar, dono de um jornal quase completamente desacreditado no seio da comunidade mágica. As risotas nos corredores e as troças dos outros não são coisa que a incomode, se calhar por ter acabado por se habituar ao assunto. Comecei a adorar esta personagem quando li o quinto livro um pouco antes de o quinto filme ter sido lançado, se não me engano. Tenho de dizer, desde já, que o quinto livro foi um dos meus grandes favoritos, pelo que o filme resultou numa quase completa desilusão. Mesmo assim, achei que a personagem estava bem interpretada. Evanna Linch demonstrou ser realmente a justa fã fervorosa de Harry Potter que jurava ser.

Tenho duas cenas preferidas no filme. Uma é quando o Harry a encontra descalça na floresta e falam sobre o facto de ele se estar a afastar de toda a gente, porque sente que ninguém o compreende, e outra é quando, no final do filme, ela procura os seus sapatos que, pelos vistos, alguém espalhou por Hogwarts para gozar com ela. Depois da morte de Sirius, é ela quem consegue dar maior calor a Harry, surpreendentemente.
Esta personagem fascina-me não só pela sua loucura – talvez ligeira falta de normalidade seja mais rigoroso – que não tem medo de demonstrar mas também pela sabedoria que poucas vezes demonstra ter mas que predomina nas suas decisões. É a prova de que não precisamos de ser todos iguais, seguir o que é suposto ser seguido, para sermos pessoas cheias e tão adoráveis quanto Luna. Gosto também da ideia de se poder ser aluada e muitíssimo corajosa ao mesmo tempo.

Cena 1:11
“Luna: They’re called Thestrals. They’re quite gentle, really, but people avoid them because they’re a bit…
Harry: Different.
(…)
Luna: I suppose that’s what he wants you to feel.
Harry: What do you mean?
Luna: Well, if I were You Know Who, I’d like you to feel cut off from everyone else ’cause, if it’s just you alone, you’re not as much of a threat.”

Cena 8:48
“Luna: I’m sorry about your godfather, Harry.
Harry: Are you sure you don’t need any help looking?
Luna: That’s alright. Anyway, my mum always said, the things we lose have a way of coming back to us in the end… just not always in the way we expect.”

Topher Brinck

Topher Brinck é uma personagem criada por Joss Whedon e consta da série Dollhouse, de 2009/2010.

Sempre achei o Topher uma personagem muito estranha e, talvez por isso, fascinante. Na trama da série, infelizmente muito pouco conhecida e com pouco sucesso, Dollhouse, nascida das mãos de Joss Whedon, Topher é um jovem promissor com uma mente perigosamente curiosa e determinada. Muito sumariamente, a Dollhouse trata-se de uma empresa que angaria pessoas que aceitam que lhes “congelem” as mentes por cinco anos para que, durante esse tempo, o seu cérebro seja preenchido com outras “pessoas” e usado de várias maneiras pelo clientes da empresa; quando as suas mentes lhes são restituídas, já o tempo terá passado sem que elas se apercebessem ou tivessem qualquer tipo de memória do que se passou. Trata-se, portanto, de um processo de isolamento daquilo que faz com que nós sejamos nós próprios, passo a redundância, e de extracção disso mesmo para se poder inserir nesse corpo uma nova “pessoa” criada virtualmente. Eu sei que isto soa completamente a ficção científica, mas penso que é preciso mesmo ver a série para entender que é mais que isso. Seja como for, Topher é a mente brilhante por trás de todo este processo. Quase toda a tecnologia é da sua responsabilidade e gerida por ele. Embora não seja ele o grande responsável pela empresa, ele é o peão científico usado para levar as coisas a cabo. De início, o Topher que nos é apresentado tem um carácter que parece frio, despreocupado, presunçoso e com um orgulho pleno naquilo que faz. Vemos um Topher que não faz perguntas acerca da legitimidade do que faz. O seu fascínio pelo progresso, pelas suas excêntricas descobertas, falam tão alto que nem o levam a questionar primeiro se o que faz é moralmente correcto. No final da série, vemos Topher a enlouquecer e a julgar-se a pior pessoa do mundo por ter posto a ciência à frente da moralidade. Ele acaba por pôr fim à sua vida no último episódio e por conseguir reverter grande parte daquilo que fez. Penso que é seguro dizer que acaba por ser a personificação do anti-herói que hoje em dia é adoptado, no seguimento da crescente preocupação em conferir densidade e complexidade às personagens.

Pocahontas

Pocahontas é uma personagem da Disney, baseada na índia Pocahontas, que viveu entre os anos de 1595 e 1617

Acho que praticamente todas as pessoas da minha geração têm uma personagem da Disney como referência da sua infância. As meninas têm as suas princesas favoritas, os meninos têm os seus heróis. Num caso ou noutro, são as “pessoas” que, enquanto pequeninos, ascendemos a ser.
Dificilmente conseguimos fazer passar a Pocahontas por princesa da Disney. Naqueles pacotes promocionais, com as bonecas de todas as princesas, é raro ela aparecer. Normalmente, são sempre a Cinderella, a Branca de Neve, a Bela, a Jasmin, a Pequena Sereia, a Bela Adormecida, todas elas nos seus vestidos de baile, umas mais exóticas que outras. A Pocahontas que eu conheci – sim, porque me recuso a aceitar os filmes que se seguiram ao primeiro que a Disney produziu; para mim, a Pocahontas é somente a do primeiro filme, e acabou – nunca teve vestido de gala, nem foi a bailes. Ela sempre andou pela floresta a falar com as árvores, a cantar e a fazer mais ou menos o que lhe apetecia. A sua curiosidade levou-a a encontrar, primeiro que qualquer outra pessoa da sua tribo, os ingleses, que chegavam à América com expectativas de encontrar ouro e enriquecer no “novo mundo”. Levou-a também a encontrar John Smith, o mais destemido homem da tripulação, coleccionador de viagens e de aventuras. Cedo se percebe que, por muito culto que seja, Smith não sabe nada acerca de culturas diferentes, de ecologia e de amor. Com o tempo, eles aprendem um com o outro a conviver com as diferenças, de tal modo que desaprendem a viver um sem o outro.
Curiosamente, este foi o primeiro e penso que, até agora, o único filme da Disney que vi que acaba mal. Apesar de tudo, o John e a Pocahontas acabam separados, quando ele tem de ser levado de urgência de regresso a Inglaterra, para receber tratamentos médicos.
É claro que a história real não foi nada disto. Sabe-se que o John Smith tinha cerca de 21 anos quando chegou à colónia da Pocahontas, e que ela tinha 14. Sabe-se também que ela foi a intermediária entre o seu povo e os ingleses, de modo a que se entendessem, e que foi para Inglaterra, onde foi recebida pelo rei por causa de uma carta que Smith lhe mandou, a dizer maravilhas dela. Entretanto, ela casou-se com um outro John (oh pá, é um nome comum, que é que se pode fazer?), com quem teve uma filha. Morreu muito jovem numa viagem para a América, vítima de uma das doenças a que as pessoas ficavam vulneráveis nessas situações.
Para mim, a Pocahontas foi (e é) o símbolo da mulher independente, sábia, ágil e inteligente que eu sempre quis ser. Lembro-me de cantar as músicas do filme repetidas vezes para o meu muito paciente avô, de saltar as pedras como ela, de imaginar que estava na grande floresta americana, que desbravava os seus caminhos e falava com as árvores. Queria entender a língua do vento, e do mar, e das plantas, como ela. Queria ter uma bússola que, um dia, me indicasse exactamente o meu caminho, e que eu fosse a correr, como ela, para ele.
Hoje ainda faço por saltar as pedras como quem dança, toco as árvores como se fossem a avó Willow e procuro o meu caminho, mesmo sem bússolas com setas giratórias.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s