“I hope we can find a way of seeing it all”

Existe uma casa, numa colina florida, com vista para o mar, que espera os seus moradores. Ela não sabe o que está lá a fazer, por que a construíram, ou por que espera. Não sabe que oceano é aquele que se enfurece no Inverno e dança lentamente no Verão. Não sabe como se chamam as flores azuis no quintal. E não se importa. O tempo não é relevante para ela. Não tem maneira de o medir, nem quer, porque não o quereria contar. Nunca queremos contar o tempo quando esperamos por uma coisa que não sabemos se virá.

Pode tornar-se no nosso maior inimigo, o tempo. E esta casa não quer inimigos. Aliás, ela é o cúmulo da pacificação de ideias e posições. Tudo nela inspira calma e segurança. Os muros de pedra, invadidos por folhas verdes pequeninas que se esticam para ver o que está do outro lado, inspiram protecção. As janelas abertas, com as cortinas a repousar no ar, quase a tocar o chão, respiram tranquilidade. O baloiço oscila levemente no jardim, a brincar com o vento. O cheiro do mar chega lá acima e abraça o perfume da baunilha que cresce junto ao passeio. O portão de madeira está aberto. A porta, com uma rede, às vezes bate. E, nessa altura, os espanta-espíritos tilintam timidamente.

Há um livro, marcado com uma fita de cabelo vermelha, esquecido na relva. Não sei qual é, nem quem o escreveu. Deviam levá-lo para dentro. Parece que o mau tempo se vai instalar esta noite. Já começa a fazer frio.

A paragem de autocarro à frente da casa está vazia. Não são horas de as pessoas andarem a passear. Pergunto-me se, tal como a casa, também estão à espera. Ou se simplesmente ainda não sabem que é ali que vão parar. Será que, se estiver com atenção, consigo ouvi-los agora, a planear o jantar que terão daqui a muitos anos?

Muitos anos? Ou poucos? Que tempo é? Que dia? Que horas? Que ano?

Esqueci-me; a casa não sabe, e eu também não. Ninguém pode saber. É um segredo do universo. Toda a gente vai descobrir, algum dia. Será que nesse dia vou parar de bater o bolo na cozinha, vir à porta, trazer para casa o livro que ficou no jardim e lembrar-me? Será que me vou ver a mim própria ao portão, a contemplar a paragem vazia e a sentir saudades do futuro? Como quero sentir os meus olhos de então cravados no meu pescoço, sem saber o que fazer…! Mas não me vou virar, não quero estragar tudo. Vou ficar aqui só mais um bocadinho, à espera que o universo me responda. E tu… bem, eu. Se algum dia me encontrar assim, deixa-me estar. Eu sou a razão para a casa estar erguida, e para o tempo ter parado neste instante, agora e depois.

Os fantasmas do futuro não me assustam. O que me assusta é a possibilidade de não os poder cumprir.

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