Livros e e-books

Estou a ter uma cadeira este semestre chamada Media Interactivos, inserida no currículo de Cinema e Televisão, o que não faz sentido nenhum, já que não tem nada a ver com a vertente em questão. Seja como for, e queixinhas à parte, todas as semanas temos alguns textos para ler e comentar na aula “prática”. Eu, com toda a minha esperteza, construí a minha opinião logo a seguir a ler os textos, pensando “Ora bem, está-se mesmo a ver que vou sair cedo da aula, com tudo feito.” Mas os planos foram trocados e o texto acabou por não servir. Seja como for, achei a ideia dos e-books bastante interessante e acho que não perco nada em deixar aqui a minha opinião. Ela é baseada num texto de Thomas Baekdal, com o título “What if every ebook was its own social network?”. E aqui vai!

Ontem dei por mim a comentar: “Ler é uma actividade muito solitária.” Disse isto para justificar por que é que os meus livros estão todos riscados e comentados. De facto, quando compro um livro, já sei que, quando o acabar de ler, ele vai ter uma série de outras coisas escritas por mim própria, quer sejam observações parvas, coisas que achei interessantes e que quis sublinhar, desenhos das personagens e situações ou mesmo árvores genealógicas e barras cronológicas para me orientar na história. Quem já leu um livro com essas anotações minhas diz que é como se eu falasse com o livro. Nunca antes me tinha ocorrido que o poderia fazer, mas enquanto contacto com outras pessoas.

É certo que esta nova ideia, que transporta a ideia de “livros interactivos” para um outro nível, como explica o autor deste texto, tem potencialidades para vir mudar completamente os nossos hábitos de leitura: o que lemos, a maneira como lemos, a frequência com que o fazemos e o modo como o partilhamos. O modo como se escreve também não fica de fora, nesta equação. Para que este novo modelo funcione, o próprio autor dos livros tem de adaptar a sua atitude, tornando-se muito mais disponível, aberto a discutir as suas ideias – o que o levou a pensar nisso, por que é que determinada coisa acontece assim – e, quem sabe, até dar pistas para novos livros que tenham ligação aos já lançados e nos quais esteja a trabalhar. Quem sabe as próprias opiniões dos fãs venham a condicionar o final, ou determinada cena.

Antes de partir para um exemplo muito concreto, não posso deixar de dizer que limitar os livros interactivos ao acrescento de suportes de filme e áudio nunca seria algo capaz de satisfazer e cativar os leitores. Lembrei-me imediatamente do recorrente desabafo “Gostei imenso deste livro, mas fiquei muito desiludida quando vi o filme. Não era nada do que tinha imaginado e faltavam imensos pormenores.” Penso que a magia dos livros está precisamente nessa liberdade por parte do leitor em imaginar os espaços descritos como lhe apetece, em absorver as personagens à sua maneira, em personalizar a história e dar asas à imaginação, tornando-a, de um certo modo, sua. Aí é que está a magia das palavras.

E aproveito o mote da magia para partir para o meu exemplo. Talvez possamos dizer que a J.K.Rowling é uma espécie de pioneira deste novo conceito de leitura. A partir da sua muito bem sucedida saga de livros, Harry Potter, a autora apresentou muito recentemente um site, de nome Pottermore, que pretende precisamente ser uma base interactiva onde os fãs possam partilhar todo o material que tiverem sobre a história, falar com a autora, submeter fanfics, ver conteúdos extra que ela publique e até ser transportados para a própria história, ao assumirem uma personagem que interage num jogo com algumas das personagens criadas pela autora. Ainda que a saga esteja já acabada, e que não seja prevista nenhuma mudança nesse sentido, os fãs mantêm-na activa, viva.

Acho que este é um modelo de leitura inovador que poderá estender-se a todo o tipo de livros, embora ache que resulte melhor com determinados géneros. Penso que poderá ser algo com grande sucesso entre o público infanto-juvenil, sobretudo numa altura em que se discute o problema da falta de leitura nestas faixas etárias. Este tipo de plataforma seria muito apropriada para uma geração que cresceu com as novas tecnologias e que precisa de algo mais do que pegar num livro, lê-lo a voltar a pô-lo na prateleira, sem que mais nada aconteça. Partilhar ideias e torná-las activas é, no final de contas, uma forma de as consolidar.

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