Sabem aquela música que diz algo como “Feeling 22, acting 17”? Ironicamente, costumava ouvi-la quando tinha os meus 16, 17 anos, por isso, nunca tinha alcançado a sua profundidade. Agora acho que percebo até bem demais.

Uma pessoa que se julgaria adulta e racional sofre uma espécie de explosão de hormonas que a faz ter atitudes inexplicáveis, como fugir da pessoa sem nenhuma razão aparente, dizer coisas sem sentido, ficar corada até à ponta dos cabelos ou interpretar sinais como uma lunática. Sou uma verdadeira profissional quando se trata de fazer este papel. Disso não tenho dúvidas.

Enfim, paixões platónicas são uma coisa muito linda a inocente. Mas e então onde é que se traça a linha que nos tira dessa fase maravilhosa de adolescente? Claro, a sensação de ter 17 anos outra vez é fantástica. Mas, de uma maneira ou de outra, algum dia teremos de nos juntar às pessoas crescidas, de assentar os pés no chão. A fase de andar de mãos dadas às escondidas dos papás, ou de mandar bilhetinhos e sms nas aulas já passou.
E o que é que isso significa, exactamente? Isso quer dizer que comprámos o nosso bilhete só de ida para a região amena do romance amigável? Acalmadas as hormonas, guardadas as histórias de contos de fadas em cassetes e livros para os filhos verem, arrumados os bilhetinhos na caixa de sapatos debaixo da cama, o que resta? Saltos altos, maquilhagem, jantares em restaurantes românticos? O tradicional “date”, ida ao cinema, saídas ao café, e por aí adiante? É esta a próxima fase? Um intrincado jogo cheio de códigos e regras que ainda ninguém se deu ao trabalho de escrever? (ou deu?)
Vamos ter calma e respirar fundo por uns segundos.

Já está?

Ok, então vamos tentar ser racionais por um momento.
Este ritual todo pode parecer extremamente artificial, sobretudo depois de ser repetido exaustivamente nos filmes, nas séries e nos livros. Mas, se olharmos bem, vemos que os outros animais também têm modos muito específicos de fazer a corte. Danças, cantigas, uma maneira especial de andar, jorrar líquido verde com um cheiro intenso (sim, os elefantes fazem isso)… Seja o que for, são códigos que a outra criatura é capaz de identificar e, assim sendo, de corresponder ou não. Nós não nos contentamos com uma só forma de corte, embora tenhamos também os nossos rituais próprios, de acordo com a época, a cultura, o país, os contextos. Sim, tentamos ser originais. Mas estaremos nós a banalizar o romance, com códigos e regras a mais?

Acho que o romance precisa que estejamos dispostos a recuar uns anitos, a sentir as hormonas a brincarem com o nosso humor e a nossa capacidade de julgamento. A questão da faísca, da química. Se não houver, por melhor que nos entendamos com a pessoa, o que é que distingue essa relação de uma amizade? Eu adoro as minhas amigas, viveria muito bem com qualquer uma delas – na verdade, até passei pela experiência e não podia ter corrido melhor -, temos gostos semelhantes, ideias e modos de ver o mundo compatíveis, grande organização em conjunto, sentido de humor, sensibilidade; enfim, tudo aquilo de que uma relação precisa. No entanto, não me quero casar com nenhuma delas! Sem a faísca, como é que podemos embarcar numa relação? O que é que nos leva a ter essa vontade? O que é que faz com que os rituais lamechas e, de certo modo, repetidos, nos pareçam tão mágicos outra vez? Só o nosso “eu” de 17 anos, com a sabedoria dos anos que então tivermos, nos pode dizer. Se, por um lado, há que manter uma criança viva dentro de nós, acho que também devemos manter uma adolescente insegura e desorientada. Porque acredito cada vez mais que não há maneira de nos apaixonarmos sem sentirmos que temos 17 anos, o mundo está todo contra nós, mas nós temo-nos um ao outro.

Posto isto, como é que ficamos. Eu acredito nisto. Mas também acredito no que escrevi há uns dias acerca das paixões impossíveis. E agora, volto a dizer, onde ficamos?

Alguém que me diga, porque eu não sei.

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