E nós é que somos lixo?

Eu não costumo falar de política aqui no blog, confesso até que não é assim assunto que seja alvo da minha devoção, mas há coisas que me põem fora de mim. Portanto, se este post acabar por demonstrar algum rancor da minha parte, é porque realmente o tenho.
Não me acho a maior defensora do meu país. Aliás, devo dizer que esta ideia de globalização me dá muito jeito. Que seria de mim sem o acesso a uma série de coisas “made in” estrangeiro, desde os computadores e telemóveis até aos filmes e à música? Admito-o e não me envergonho, porque há uma coisa de que estou muito certa: da minha identidade cultural. Quando parto ao conhecimento do que está além fronteiras, faço-o com aquilo que cá dentro existe nas mãos. Sempre fiz questão de sublinhar que a Ribeira Grande, os Açores e Portugal fazem parte de quem eu sou e vão ser sempre responsáveis por alguma porção daquilo em que me hei-de tornar. Com este esclarecimento feito, prossigo.
Estamos a passar novamente por uma crise violenta. Há quem a compare à grande queda de 1929. O que têm em comum? Ambas denunciam a falência deste sistema financeiro. Basta piscarmos os olhos e pumba!, lá estamos nós em crise outra vez. Digo mais: tenho a sensação de que, desde que nasci, o meu país andou sempre em crise. Não me lembro, em altura alguma, de ouvir alguém dizer: boa, estamos em tempo de investimentos! Foi sempre o discurso do desemprego, do défice, dos números, do sacrifício, do cinto apertado. Pois bem, de tanto me apertarem, estou bem desconfiada de que estou prestes a rebentar! E, mesmo quando já estava mais que farta destas conversas, vem a Moody’s abrir a boca para dizer asneira.
Portugal é um daqueles países europeus com o grave problema de importar mais que exportar. Somos um país pequenino, pagamos bem (ou, pelo menos, o que podemos) aos nossos trabalhadores, não temos grandes níveis de produção, logo, temos de ir buscar lá fora. E, mesmo quando cá temos as coisas, as pessoas acabam por preferir o que vem do estrangeiro porque é mais barato. E por que é que isto acontece? Ora, coisa mais simples de explicar não há.
Pensaríamos nós que, pelo facto de as coisas virem de tão longe, só o preço da deslocação seria o suficiente para que o preço fosse superior ao que aqui se faz, certo? Errado. Enquanto nós pagamos aos nossos trabalhadores, o pessoal na China ou na Tailândia paga uma ninharia e explora os seus. É claro que, no final, o preço vai ser mais baixo. Isso junta-se ao facto de não termos níveis de produção muito altos, logo, cada coisinha que produzimos ter valores superiores a alguém que produza o mesmo em quantidades astronómicas. Este cenário ainda ganha como aliado a ideia do consumismo desmesurado. Tudo o que usamos parece ser descartável. É tudo plástico, tudo se torna inutilizável, e nós produzimos lixo em quantidades absurdas. Não há sustentabilidade, não há equilíbrio. Há coisas que se produz a mais, outras a menos. Somos livres, mas não temos medidas. Parece que não temos limites, que somos todos filhos mimados que puxam pelos pais até ao fim, até não haver mesmo mais nada para tirar. Endividamo-nos, pedimos emprestado, vivemos acima das nossas possibilidades, para ter um momento em que sentimos que temos o rei na barriga. Este conjunto de coisas, estas mentalidades que se estão a (de)formar, dão um resultado desastroso.
A partir daqui, vão-se agravando. Começámos a entrar numa crise (ainda mais) profunda, o desemprego começou a aumentar, o poder de compra a descer e o pior de tudo é que, no meio dos números infernais e das estatísticas do diabo, esquecemo-nos de quem somos. Sim, porque nós não somos uma coisa qualquer.
Mas é assim que estamos a ser todos tratados. Como coisas. De tal modo que a Moody’s (o que, apropriadamente, em inglês quer dizer “mal disposto, rabugento”) decidiu avaliar Portugal como lixo. Sim, lixo, disse bem. Uma empresa de notas de crédito com 102 anos achou que havia de classificar um país inteiro como lixo. Que maneira mais bregeira de nos mandarem à merda.
E agora eu digo: com que autoridade, com que lata uma empresa de 102 anos pega num país com 1143 anos de existência, que já passou por tudo e mais alguma coisa, e se classifica o dito cujo, de alma leve, como lixo? É como um miúdo de 2 anos a mandar um senhor de 100 anos para o raio que o parta. Não estou a dizer que somos santinhos, que fizemos tudo bem, que somos muito inteligentes e temos um fantástico poder de gestão. É verdade que temos muitas falhas de base, mas também é verdade que nos orgulhamos de defender valores maiores que números ou avaliações de rating. Fomos o primeiro país a abolir a pena de morte, um dos primeiros a aprovar a lei sobre o aborto, a permitir o casamento entre pessoas do mesmo sexo, a abolir a escravatura. Começam a perceber do que é que estou a falar?
O meu medo não é que o défice fico vermelho, verde, cor-de-rosa às riscas ou faça o pino de maiô. O meu medo é que isto faça com que nos esqueçamos de quem somos, do que temos de bom. Há tanto para descobrir em Portugal, tanto para desenvolver, para aproveitar, com equilíbrio, sustentabilidade. Somos um país cheio de vida, cheio de história e cheio de sonhos! A nossa cultura é uma das mais ricas e agridoces de sempre, as nossas paisagens são algo de mágico e majestoso sem que sequer lhes tenhamos de tocar. Temos imensos sotaques, imensos costumes, apesar de sermos um país tão pequenino. Fomos os maluquinhos que se decidiram lançar ao mar, porque metemos na cabeça que tinha de haver alguma coisa para além do que víamos! Desafiámos as mentes quadradas da altura e provámos que o mundo é redondo, dá muitas voltas e está cheio de coisas novas para descobrir. Nós fomos, somos e seremos o povo da saudade do que se teve e do que se tem esperança de ter. E não, não podemos deixar que um monte de gente com a gravata ao pescoço e calculadoras em riste nos diga que somos isto ou aquilo por causa de números. Somos pessoas, temos nomes, temos dignidade e havemos de ultrapassar isto juntos. Chegou a hora, como dizia Fernando Pessoa, de fundar o Quinto Império. O da cultura, do respeito, do amor à natureza e da sustentabilidade. Se isso é lixo, então deitem-nos fora, porque no dia em que entrarmos no vosso jogo de especulações, aí sim, vou sentir-me deserdada e suja. Até lá, o lixo não somos nós.

E, só para provar que não estou sozinha, aqui ficam algumas pequenas mensagens dos portugueses à Moody’s.

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