Aniversários

Já dizia o Saramago que, ao contrário do que se pensa, a matemática é uma das disciplinas menos exactas que existem. Quando o li pela primeira vez também pensei que era um disparate mas, na verdade, depois de ler a sua explicação, começou tudo a fazer sentido. O exemplo que Saramago dá, em Memorial do Convento, tem precisamente a ver com as obras do Convento de Mafra e os homens nela envolvidos. Segundo ele, a matemática considera 500 homens e 500 tijolos exactamente a mesma coisa. São 500, pronto. São 10×50, ou 1000/2, ou 250+250, ou 1600-1100. Mas homens e tijolos não podem nunca ser reduzidos à mesma coisa. Sim, sim, a matemática pode considerá-los diferentes em relação ao seu peso, às suas dimensões, mas isso continua a não significar nada para além de números, de quantidades. É como quando nos contam aquelas adivinhas com rasteira do género: “O que é que pesa mais, 500 quilos de penas ou 500 quilos de pedras?”. Pesam o mesmo, mas nunca serão o mesmo (ora aí está uma bela resposta pretensiosa para se dar).
A matemática não foi feita para pesar valores ou para atribuir importância às coisas, embora ela acabe por fazê-lo demasiadas vezes. Basta darmos uma breve olhadela ao mundo económico/financeiro, ou mesmo ao mundo em geral, para perceber que sim. Basta pararmos para observar todos os processos que se desenrolam e funcionam com base em princípios matemáticos: na escola, somos avaliados em escalas de 0 a 20; no trabalho, pagam-nos aquilo que consideram que nós valemos; os jogadores de futebol são negociados como mercadoria; a arte também; os homens julgam que se conseguem medir aos palmos (if you know what I mean); as mulheres pensam que se devem medir aos (poucos) quilos; os media vão contando a sua aceitação com audiências em ratings nós vamo-nos avaliando uns aos outros pela quantidade de anos que temos. Tenho a certeza que existem mais exemplos, mas não queria ser exaustiva, até porque o meu objectivo não é deitar a matemática abaixo por ela não ser capaz de definir o mundo. Bem vistas as coisas, não me parece que tenha sido com esse objectivo que a criaram. Mais grave que isso é a linguística e a filosofia não conseguirem ocupar esse lugar, que lhes deveria pertencer e, mesmo que o fizessem, permanecerem incapazes de definir seja o que for.
Do mesmo modo que 500 é sempre igual, as palavras, os conceitos, embora mais flexíveis por serem propícios a mudanças de contexto, são extremamente limitados. Acho que só me apercebo disso nos momentos em que sinto profundamente alguma coisa, precisava de a exprimir, mas não consigo, não por não saber que palavras devo usar (embora muitas vezes isso também aconteça) mas por ter a sensação que são palavras gastas, que são uma coisa para mim que é diferente do que são para outra pessoa ou mesmo por não conseguirem carregar aquilo que realmente nos vai na alma. Com o constrangimento da mediação, vamos sempre perdendo coisas pelo caminho, deixando pistas aos outros que não são mais do que isso mesmo: pedacinhos de pão deixados pelo chão para alguém seguir. E depois esses pedaços são levados pelo vento, criam outro caminho qualquer e as pessoas nunca se chegam a encontrar. E, escusado será dizer, mas não demasiado lembrar, que não podemos deixar que uma pessoa entre na nossa cabeça e pense como nós, veja o mundo literalmente através dos nossos olhos. Então, essas palavras deixam-se ficar por isso mesmo: conceitos gastos. Ouço muitas vezes a expressão “Uma imagem vale mais do que mil palavras” e ecos do célebre anúncio do “Falam, falam, mas eu não os vejo a fazer nada”. São só a confirmação desta desacreditação, desta falência da palavra. Mas devemos nós, então, assumir que o silêncio fala melhor que as palavras? Será preferível não as usarmos de todo, já que são assim tão limitadas?
Oh, desculpemos as palavras e a matemática. Estamos todos recheados de falhas e não é por isso que alguma coisa nos impede de existir na mesma. Julgo que o caso não é tão extremo ao ponto de as palavras não servirem para nada – é claro que não, senão nem teria escrito um texto para o explicar; isso seria um redondo paradoxo. Mas também penso que precisamos de deixar de as pôr num pedestal ao lado da matemática. Nem uma nem outra são suficientes por si só, tal como um só floco de neve não consegue fazer um nevão (está um sol estival lá fora e eu aqui a fazer comparações com neve; passa-se algo de muito errado comigo). O que eu quero dizer é que, à falta de melhor, vamos ter de continuar a usar números e palavras para nos organizarmos, a nós e ao mundo. Mas não o poderemos fazer sem antes ter a consciência das lacunas que elas transportam e do reforço de que, muitas vezes, precisam. Actos, imagens, música, eu sei lá! Talvez isso também não seja suficiente, mas ao menos teremos todos consciência disso e, quem sabe, arranjemos maneira de nos ligarmos uns aos outros, irreversível e completamente, se assim o desejarmos.

E tudo isto a propósito do quê? Juro que se o conseguisse explicar, fá-lo-ia, mas tenho demasiado medo das palavras gastas, das quais poucas ou praticamente nenhuma vez me apropriei. Queria dizer “És importante para mim”, ou “estou mais feliz do que julgas por existires”, ou então “o mundo é infinitamente melhor porque tu existes”. Mas as “minhas” palavras andam presas, e admito que, provavelmente, sou eu que as prendo, só eu (não) sei porquê. Portanto, em vez disto tudo, digo “Parabéns”, como quem o diz a um pai, a uma mãe, a um amigo ou a um estranho que se acabou de conhecer. E digo-o sempre na esperança de algum dia as minhas palavras deixarem os pedacinhos de pão suficientemente colados ao chão para indicarem o caminho certo ou para, floco a floco de neve, conseguir fazer uma tempestade.

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