Eu sei que estou sempre a falar de relações amorosas e tenho agora a noção de que pareço uma desesperada que não tem mais nada em que pensar. Ainda assim, continua a achar interessante ir registando aquilo que penso acerca deste assunto, porque é algo que muda tanto mantendo, ao mesmo tempo, as mesmas bases de sempre. Dada a minha explicação do porquê de estar sempre, insistentemente, a falar do assunto, e sublinhando que isto não é sinónimo de desespero mas de genuíno interesse e curiosidade, aqui vai.
Tenho a sensação que, de certo modo, nos convencemos de que é preciso uma faísca, um “je ne sais quois” quando se conhece a pessoa que nos leva a pensarmos que aquela poderá ser a nossa alma gémea, aquilo a que, em inglês, chamamos de “the one” (traduzido talvez para “o/a tal”). É suposto que, num só instante, nos apercebamos que estivemos à procura dessa pessoa a vida inteira e que temos de dedicar todos os nossos esforços a que a outra pessoa também chegue a essa conclusão. Esse friozinho na barriga que nos faz pensar numa coisa maior que nós e que a mera condição humana imortal, que nos eleva a um patamar superior e nos faz pessoas melhores, distintas e grandes. De uma maneira ou de outra, apoiamo-nos numa ideia de amor à primeira vista, de instinto suportado pela química. Isto é tudo muito bonito e muito poético. Pronto, cá estou eu a preparar-me para contrariar isto tudo. Mas não se trata bem de contrariar, na verdade. É verdadeiramente injusto que nos dêem apenas duas opções de resposta perante tudo isto. “Acreditas? Sim ou não.” Para além de que não tenho a certeza se isto é uma questão de crença. Citando o “500 Days of Summer”, “It’s love, not Santa Claus.”
Posto isto, vou tentar explicar mais ou menos em que posição me vejo a encaixar. É certo que temos reacções destas quando vemos determinada pessoa em alturas diferentes da nossa vida. Quem não está familiarizado com as típicas borboletas no estômago, também conhecido por friozinho na barriga? A questão é: por que é que reagimos assim a determinadas pessoas e não a outras?
A ciência já arranjou resposta para isso. As pessoas, tal como os animais, procuram um parceiro para procriação. É um instinto natural que permite a continuação da espécie. “Mas e então com as pessoas que se sentem atraídas pelo mesmo sexo? Ou as pessoas que estão em relações mas não querem ter filhos?”. Há que lembrar que estes instintos são uma herança, quer dizer, não passam de geração em geração sem alterações. À medida que o ser humano se foi desenvolvendo, foi-se moldando de diferentes formas sem, no entanto, alterar tudo.
Por exemplo, a Laura contou-me há umas semanas que nos arrepiamos porque, quando tínhamos o corpo todo coberto de pêlo, este eriçava-se e formava uma camada protectora que bloqueava o frio. É claro que já não temos pêlo suficiente para que isso aconteça, mas o impulso ainda existe em nós. Ora bem, as pessoas não se juntam sabendo racionalmente que o fazem porque pretendem dar continuidade à espécie. Pode até haver quem faça mas, regra geral, não andamos aí a pensar “Hum, aquele ali parece-me um espécimen suficientemente bom para ser o pai das minhas crias”.
Portanto, duas raparigas que se juntam têm a noção de que não podem biologicamente ter filhos juntas, mas juntas formam uma equipa capaz de criar um bebé. E as pessoas que estão em relações mas não querem filhos desenvolveram-se de um modo diferente mas reservam o instinto, tal como o dos nossos pêlos se eriçarem.
Ora pois, isto explica por que andamos à procura de alguém, mas não explica por que razão sentimos as borboletas no estômago por algumas pessoas e não por outras.
Neste processo de selecção de um parceiro, o nosso corpo e os nossos instintos andam à procura de alguém com determinadas características físicas que, quando misturadas com as nossas para construir um ADN de um novo ser humano, o façam de modo a criar um sistema o mais robusto possível. Por exemplo, quando identificamos determinadas características físicas que achamos atraentes no nosso parceiro, normalmente isso é o nosso corpo a dizer-nos que essas características, juntas com as nossas, dariam uma boa cria. Pensemos nos homens, que normalmente admiram mulheres em forma de ampulheta, com ancas largas e cintura fina. Estes são, na verdade, sinais de fertilidade. Inconscientemente, estão a pensar que aquela parceira seria capaz de ter uma gravidez bem sucedida e de dar à luz os seus filhos. Interessante, ãh? Para além disso, normalmente procuramos pessoas com sistema imunitário diferente do nosso, de modo a que, juntos, formem um indivíduo mais forte. Afinal a expressão “os opostos atraem-se” até é científica.
Tudo isto parece tirar uma certa magia ao acto de nos apaixonarmos. Se estivermos a pensar “ah, é o meu cérebro a dizer-me para fazer coisas”, é claro que a magia se desvanece. Mas de nada vale repetirmos para o nosso cérebro “pára com isso que estás errado, essa pessoa não é viável”, porque ele vai continuar a mandar mensagens que te indicam do contrário. É claro que se o ignorarmos simplesmente e nos concentrarmos noutra coisa qualquer, ou noutra pessoa, ele lá acabará por parecer calado passado algum tempo. Mas é talvez por isso que mantemos uma sensação de desejo em relação a alguém, mesmo depois de termos chegado à conclusão de que uma relação não iria resultar e que é completa perda de tempo.
Vendo bem as coisas, ironia das ironias, não é o nosso coração que temos de controlar mas o nosso teimoso cérebro, que puxa para o lado que quer, as vezes que quer, sem consultar seja o que for. Ah, well, tirania cerebral. E eu a pensar que era a tirana em relação ao resto do meu corpo.

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