São onze e meia de uma manhã de Quarta-Feira e estou mesmo no fim de um furo, sentada na biblioteca e com um poste de luz a abanar vigorosamente lá fora, à minha frente. Os dias não têm tido muito de animador, a destilar água a toda a altura do dia. Hoje à noite trovejou de tal modo que acordei com o barulho.
Estou na faculdade desde as oito da manhã e sinto que a minha vinda foi mais ou menos inútil. “Não”, convenço-me eu, “nada é inútil, tudo acontece por uma razão.” Pois talvez. Eu acho que a minha razão ficou mais ou menos clara, mas não era propriamente aquela com que me queria confrontar.

Acho que os nossos reflexos parecem sempre mais bonitos do que aquilo que realmente somos. Quando me olho no reflexo da janela à minha frente, as coisas não parecem mal: não há borbulhas, cabelos espigados ou pormenores irritantes. Há só manchas de cor, meio transparentes, que simulam um ser sem detalhes, atravessado pelo ambiente onde é projectado. Como posso eu gostar do reflexo se lhe conheço como ninguém a origem? E, como posso, tantas vezes, guiar-me por uma terceira via de pensamentos, a que reflecte sobre aquilo que os outros pensam sobre mim, em vez de olhar para essa segunda ou mesmo para a primeira via?
O meu reflexo não me responde. Mas ele, limitado, não passa de simulacro.

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