Sem título – Excerto III

O tempo no exterior estava absolutamente impossível de suportar numa cabana de madeira sem aquecimento central ou lareira. O riacho no exterior mal se via, tal era a densidade do nevoeiro, e a ponte apenas deixava vislumbrar uns ténues contornos. Caroline enroscara-se à janela e fixava uma luz dourada que não sabia bem de onde vinha. Talvez de uma casa acolhedora, ou dos faróis de um carro com ar condicionado. Pensou em como sentia saudades da sensação de calor no corpo, de se movimentar sem que os ossos lhe doessem do frio. E depois lembrou-se de Lydia a brincar descontraidamente no tapete da sala dos McLauren e de como se parecia com a mãe a fazer festas a Nico. Suspirou, indecisa acerca de qual dos desconfortos a afectava mais.
– Chá? – ofereceu Ethan, que tinha estado uma quantidade de tempo alarmante perto de um fogão sem deitar fogo a nada. Caroline aceitou de bom grado e voltou a fitar o exterior, esperando que fosse mensagem suficientemente clara de que não queria conversar. Esqueceu-se, é claro, de que nenhuma mensagem parecia ser directa o bastante para Ethan.
– Parece que estamos numa música de Natal, ãh?
– O quê?
– Oh, tu sabes, as músicas de Natal, com o tempo horrível lá fora e duas pessoas numa cabana. É um bocadinho cliché.
– Hum. – anuiu, experimentando um gole da sua chávena e a desejar que Ethan só quisesse discutir com ela canções natalícias.
– Ouve, Caroline, acerca de ontem…
– Oh, por favor, eu já disse que não quero falar sobre isso…!
– Mas não estou a pedir que fales, só quero que ouças.
– E eu estou a dizer que não te quero ouvir. Já passou, não podemos simplesmente esquecer?
– Não.
– Então estás a obrigar-me a sair porta fora e nunca mais falar contigo na vida. – ameaçou. – Não sei por que é que te estás a rir.
– Porque acabaste de me lançar a cartada do “não falo mais contigo”. Já não ouvia essa há muito tempo.
– Já não deves irritar pessoas desta maneira há muito tempo.
– Só irrito as que valem a pena.
– Oh, sinto-me honrada. – ironizou, amuada. Tinha a noção da figura infantil que estava a fazer, mas não a conseguia controlar. Talvez a esta linguagem Ethan respondesse.
– Caroline…
– Estou a falar muito a sério, Ethan. Estou a poucos graus de paciência de ir fazer companhia ao nevoeiro.
Ethan ia rir-se, mas depois olhou para os cabelos desalinhados dela escondidos na manta, a sua expressão furiosa, olhar fulminante, e conseguiu vê-la a cumprir a sua palavra. Não estava disposto a provocá-la ao ponto de ela se meter no temporal e arriscar voltar com uma bela gripe, ou pior. Desiludido, deixou-a sozinha a olhar o seu ponto dourado e fechou-se no cubículo a que o morador chamara de quarto. Pegou na guitarra, desencantou um recibo velho de compras e uma caneta e dançou nas palavras até que a escuridão as calasse, tal como Caroline, e o embalasse numa estranha sensação de felicidade.
Na manhã seguinte, foi dar com ela enrolada em todas as mantas disponíveis na sala a dormir serenamente. Cassandra voltou por volta das duas da tarde com o anúncio de que a maior parte das estradas tinham sido cortadas e que toda a vila estava em alerta por causa da neve que se esperava para mais tarde. Conseguiu ainda que o proprietário fosse lá dar um pulinho a meio da tarde para tentar perceber o que se passava com o aquecimento. Não esclareceu onde tinha passado a noite e Ethan não perguntou. Caroline estranhou que ele não tivesse insistido com ela acerca da conversa que queria ter tido a noite passada e convenceu-se de que ele deveria estar a planear alguma. Na noite anterior construíra umas três ou quatro conversas prováveis com desfechos completamente distintos: numa acabava a adormecer junto de um cabide sem casacos com uma bolsa de dinheiro ao pescoço, noutro Ethan morria e era encontrado no rio, noutro ainda Lydia roía a guitarra de Ethan no meio da casa dos McLauren enquanto ele acariciava a cabeça de uma muito chorosa Mrs. McLauren no seu colo e noutro, por fim, ela acordava junto de Ethan, com os raios da manhã, ou a chuva a bater nos vidros. E, apesar de tudo, este último era o que lhe parecia mais estranho.

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