Suspender-me

Houve um dia em que decidi finalmente que não valia a pena. Não, definitivamente não. “O quê?”, perguntam-me. “Tudo”, respondo. E, na verdade, ninguém perguntou, mas eu respondi na mesma.
Nesse dia, então, desliguei-me do meu corpo. Decidi que o meu “eu” ia ficar parado, estagnado naquele momento, naquela cama, e que o mundo me ia passar todo à frente dos olhos. Eu? Eu fiquei lá; a pessoa que se arrasta no tempo funciona por automatismos, por convenções gerais que o meu “eu” lhe deixou como notas para o autómato seguir. “Eu” fiquei então a ver o que acontecia com esse corpo ao qual a dona arrancou o coração.
Para ser mais clara, esse dia é hoje e esse momento em que me sustive ainda está a acontecer. Mas, de agora em diante, vou suspender-me aqui e só me permito a voltar a este momento para despejar esse mecanismo inútil que me torna humana, esse que é uma caixinha de flores com um odor que contamina tudo.
Estou, pois, a deixar a caixinha aqui fechada também.
O vazio vai entrando, finalmente. Mas vem com cheiro a flores…

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