Os doze dias (antes) do Natal – 3º dia

E cá estamos finalmente “back on track”, que é como quem diz que lá consegui pôr os posts em dia para a partir de agora fazer as coisas aos bocadinhos, como é suposto serem feitas. Um post por dia até ao Natal, só com coisas boas, é esse o espírito!

O que se segue não é bem uma coisa evidentemente de Natal. Na verdade, é um excerto do “Harry Potter e os Talismãs da Morte” que… bem, acho que ele fala por si. É a primeira vez que o Harry regressa à casa onde viveu com os pais, que acaba por calhar exactamente na noite de Natal. Aqui fica um excerto daquilo que estou a falar.

“Com o coração a bater-lhe na garganta, Harry abriu os olhos. Encontravam-se, de mãos dadas, numa aziganha coberta de neve sob um céu azul-escuro onde começavam a cintilar debilmente as primeiras estrelas da noite. De ambos os lados do estreito caminho havia vivendas, em cujas janelas brilhavam decorações natalícias. Um pouco mais à frente, o clarão dourado de candeeiros de rua indicava o centro da vila.
(…) prosseguiram sem problemas, com o ar gélido a morder-lhes o rosto à medida que iam avançando pelas casas: qualquer delas podia ter sido aquela onde James e Lily haviam vivido em tempos, ou em que Bathilda vivia agora. Harry fitava as portas, os telhados cobertos de neve e os alpendres das entradas, perguntando-se se recordaria alguma delas, sabendo intimamente que tal era impossível, que tinha pouco mais de um ano quando deixara aquele lugar para sempre. Nem sequer tinha a certeza de poder ver a casa; não sabia o que acontecia quando morriam pessoas sujeitas a um Encantamento Fidelius. Depois, a azinhaga por onde caminhavam curvou para a esquerda e o centro da vila, uma pequena praça, surgiu diante deles.
Decorada a toda a volta com luzes coloridas, tinha no meio algo que parecia um memorial de guerra, parcialmente tapado por uma árvore de Natal fustigada pelo vento. Havia diversas lojas, uma estação de correios, um pub e uma pequena igreja cujos vitrais brilhavam como jóais do lado oposto da praça.
A neve ali era compacta: estava dura e escorregadia nos sítios que as pessoas tinham pisado o dia inteiro. Diante deles, os habitantes da vila cruzavam-se de um lado para o outro, as figuras brevemente iluminadas pelos candeeiros de rua. Ouviram fragmentos de risos e música pop quando a porta do pub se abriu e fechou; depois chegou-lhes o princípio de um cântico de Natal do interior da pequena igreja.
– Harry, acho que hoje é noite de Natal! – exclamou Hermione.
– É?
Perdera a conta à data; há semanas que não viam um jornal.
– Tenho a certeza de que sim. – afirmou Hermione, de olhos pregados na igreja. – Eles… eles estão ali, não é? A tua mãe e o teu pai? Vejo o cemitério lá por trás.
Harry sentiu um frémito de algo que era mais do que excitação: assemelhava-se, porventura, a medo. Agora que se achava tão perto, perguntava-se se, afinal, queria ver. Talvez Hermione soubesse como ele se sentia, porque lhe pegou na mão e assumiu pela primeira vez a liderança, puxando-o para diante. A meio da praça, contudo, estacou de súbito.
– Harry, olha!
Apontava para o memorial de guerra, que se transformara à passagem deles. Em vez de um obelisco coberto de nomes, havia agora um estátua de três pessoas: um homem de cabelo revolto e óculos, uma mulher de cabelo comprido e rosto doce e belo, e um bebé nos braços da mãe. A neve cobria-lhes as cabeças, quais barretes brancos e fofos.
Harry aproximou-se mais, fitando intensamente as caras dos pais. Nunca imaginara que existisse uma estátua… que estranho ver-se representado em pedra, um bebé feliz sem uma cicatriz na testa…
– ‘Bora – disse ele, depois de a ter contemplado até à saciedade. Viraram-se de novo para a igreja. Ao atravessar a rua, Harry relanceou um olhar por cima do ombro; a estátua transformara-se outra vez no memorial.
Os cânticos subiram de tom à medida que se acercavam da igreja. Harry sentiu a garganta apertada; aquilo trazia-lhe recordações tão fortes de Hogwarts: Peeves gritando versões grosseiras de canções de Natal do interior de armaduras, as doze árvores de Natal do Salão Nobre, Dumbledore com um barrete que ganhara numa rifa, Ron com uma camisola tricotada à mão…
À entrada para o cemitério havia um portão; Hermione abriu-o o mais silenciosamente possível, e avançaram. De ambos os lados do caminho escorregadio que conduzia às portas da igreja a neve acumulara-se, espessa e intacta. Moveram-se através dela, deixando atrás de si sulcos enquanto rodeavam o edifício, mantendo-se nas sombras sob as janelas iluminadas.
Atrás da igreja, fila após fila de túmulos níveos emergiam de um manto azul claro salpicado de vermelho ofuscante, dourado e verde onde os reflexos dos vitrais tocavam no solo. Conservando a varinha bem apertada na mão dentro do bolso do casaco, Harry dirigiu-se à campa mais próxima.
(…)
A escuridão e o silêncio pareceram tornar-se, de repente, muito mais profundos. Olhou em volta, apreensivo, pesando em Dementors, e depois percebeu que os cânticos de Natal haviam cessado, e que a tagarelice e a agitação das pessoas que saíam da igreja se iam desvanecendo à medida que regressavam à praça. Alguém acabava de apagar as luzes no interior da igreja.
– Harry, eles estão aqui… aqui mesmo.
E Harry percebeu, pelo tom de voz dela, que desta vez se tratava da sua mãe e do seu pai; avançou nessa direcção, sentindo-se como se algo muito pesado lhe estivesse a comprimir o peito, a mesma sensação que experimentara logo após a morte de Dumbledore, uma mágoa que realmente lhe pesara no coração e nos pulmões.
A pedra tumular (…) era de mármore branco, tal como a de Dumbledore, o que facilitava a leitura, pois parecia brilhar no escuro. Harry não precisou de se ajoelhar nem sequer de se aproximar muito pra distinguir as palavras nela gravadas.

James Potter, nascido a 27 de Março 1960, falecido a 31 de Outubro 1981
Lily Potter, nascida a 30 de Janeiro 1960, falecida a 31 de Outubro 1981

O último inimigo que será destruído é a morte.


Harry leu as palavras lentamente, como se tivesse apenas uma oportunidade de assimilar o seu significado, e ao chegar às últimas, leu-as em voz alta.
– “O último inimigo que será destruído é a morte”… – Ocorreu-lhe um pensamento horrível, e com ele uma espécie de pânico. – Isto não é uma ideia própria de Devorador da Morte? Por que está istlo aqui?
– Não significa derrotar a morte da maneira que os Devoradores da Morte o entendem, Harry – disse Hermione em voz doce. – Significa… percebes… viver para além da morte. Viver depois da morte”

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