Sem Título – Excerto II

– Lydia, por favor, já não sei que faça…
Caroline embalava Lydia nervosamente, os pequeninos caracóis loiros da menina a balançar nos seus braços entre o choro aflitivo. O quarto cor-de-rosa estava a meia luz, a janela encostada, para não se ouvir o barulho da cidade, apesar do calor fora do vulgar que se sentia. Caroline percorria o quarto de uma ponta à outra, na tentativa de acalmar a vontade de chamar alguém: um vizinho, um médico, a mãe ou, pior ainda, a irmã.
– Não, nós conseguimos. Vai ficar tudo bem, Lydia. Vai ficar tudo bem, Caroline.
DING DONG!
Intrigada com o som da campainha, Caroline consultou o relógio para se certificar de que, passados dois minutos de o ter olhado pela última vez, eram mesmo quatro e dez da madrugada. Pousou Lydia no berço, pela primeira vez desde que acordara preocupada com outra coisa que não o pranto da criança, e espreitou cautelosamente pelo buraco da porta da entrada em bicos de pés.
– Boa noite. – suspirou, aliviada.
– Boa noite. – sorriu-lhe. – Espera, onde…?
Caroline deixou a porta aberta e voltou ao quarto cor-de-rosa mal iluminado. Ethan permaneceu plantado na entrada, olhando em volta, debatendo-se se deveria achar estranho que o deixasse ali sem sequer o convidar a entrar ou que não lhe desse um enorme raspanete, como seria de esperar de qualquer pessoa com horas de sono normais, por se ter dirigido à sua casa àquela hora, provavelmente pregando-lhe algum susto. Decidiu entrar; a porta escancarada era resposta suficiente. Fechou-a e seguiu o som do choro. O quarto era o último do pequeníssimo corredor e a luz rosada escapava suavemente para o lado de fora. Caroline retera Lydia novamente nos seus braços e passeava-a com lentidão, nos seus pijamas verdes e roxos, descalças, as madeixas de cabelo a sair do elástico. Tinha um ar exausto. Ethan nunca a achara tão bonita como naquele momento. Cantava já sem fôlego, em três tons diferentes a cada frase, as faces coradas e expressões que tentavam dar conforto à criança.
– Já tentaste alimentá-la?
– Ethan, foi a primeira coisa que tentei.
– Mudar-lhe a fralda?
– Essa foi a segunda.
– Aliviar a roupa no berço? Aposto que se está a ressentir do calor.
-Essa foi a terceira.
– Ao menos estou a acertar na ordem… – sussurrou para si.
Cansada de andar de um lado para o outro no quarto, Caroline sentou-se na cadeira de baloiço coberta de mantas, paninhos e uma série de coisas que nitidamente tinham saído do berço de Lydia. Ethan tinha entrado preocupado com a pessoa que o estava a seguir, mas naquele momento não se lembrava exactamente porquê. Sentiu mesmo angústia por não conseguir fazer nada para parar o choro da menina e sossegar Caroline. Ela não conseguia ordenar os pensamentos, estava demasiado exausta para sequer dar ordem ao seu cérebro para que o fizesse. Tanto que nem notou a breve ausência de Ethan, ao ponto de, por breves instantes, lhe ter passado pela cabeça que a guitarra que ele tinha nas mãos, nitidamente a velha guitarra da irmã, se tivesse materializado nas suas mãos por magia. Viu-o a mexer nas cordas, a ajustar umas coisas, provavelmente a afiná-la à pressa, e depois a começar a tocar. Não sabia se estava a improvisar. Tanto à vontade não deveria combinar com improvisos, pensou ela, mas também não reconhecia a música, nem se esforçou por fazê-lo. À medida que deixava que a voz de Ethan a preenchesse e as cordas da guitarra a soar na sala se apoderassem dos seus músculos, de cada centímetro do seu corpo para o descontrair, começou a aperceber-se que esses eram os únicos sons na sala e que Lydia parara finalmente de chorar e cambaleava no seu colo. Apetecia-lhe tanto fazer o mesmo e adormecer simplesmente no colo de alguém que lhe dissesse que tudo ia ficar bem.
Ao terminar, Ethan aguardou uns momentos para verificar se Lydia dormia realmente, ainda perplexo por, por uma vez na vida, a música ter realmente resolvido o problema de outra pessoa tão bem como resolvia os seus. Pensou em como os pais ficariam orgulhosos.
– Não pares… – pediu Caroline.
Ethan sorriu. Na verdade, tinha acabado de tocar um original, que tinha composto naqueles últimos dias. Não era nada comercial, conseguira materializar a reacção dos seus produtores quando o ouvissem. “Não é isto que os teus fãs querem, E! Como podia isto passar na rádio? Os críticos comiam-te vivo. Perdeste o juízo.” Simultaneamente, vira as caras dos companheiros de banda, aquelas que usavam para o lembrar “És uma voz numa imagem que agrada. É só isso que tens de fazer, deixa o resto connosco.”
– Estás muito pensativo…
– E tu estás uma lástima. Vai dormir, eu fico com ela mais um bocadinho.
– Não vou conseguir dormir agora, já despertei.
– Mentirosa. Mais um bocadinho e adormeciam as duas mesmo aí.
– Oh encantador de bebés e meninas adolescentes, não fiques muito convencido disso.
– Meninas adolescentes?
– Ah, vi o engarrafamento que vocês causaram hoje de manhã. E ouvi, escusado será dizer.
Caroline levantou-se com muito jeitinho e a conversa foi suspensa na possibilidade de Lydia vir a acordar novamente aos berros pela ligeira viagem da cadeira de baloiço ao berço. Isso não aconteceu e Caroline voltou a enroscar-se na cadeira, subitamente demasiado consciente do desalinho do seu cabelo e aspecto duvidoso no geral, que se juntava a uma pontinha de vergonha face a alguém que, como tinha testemunhado naquele mesmo dia, era tão importante para tanta gente, incluindo para ela, embora de um modo um pouco diferente. Evitara sempre vê-lo através da sua faceta de celebridade. Na verdade, odiava a própria palavra, para começar. De todas as pessoas, Ethan era a pessoa que menos se encaixava nela, na sua anterior ordem do mundo.
– Não tens medo?
– Como assim, não tenho medo?
– Não tens medo de desiludir essas pessoas todas?
– Eu… é claro que tenho. Mas não posso agradar a toda a gente.
– Mas podes agradar a uma grande porção de gente à face da terra, ao que parece. Todas pessoas diferentes que te ouvem uma e outra vez. Fazes parte das vidas delas. É extraordinário. Se morresses amanhã…
– Caroline!
– Não te estou a desejar nada, mas se acontecesse, meio mundo ia sentir a tua falta. Meio mundo é muita gente.
– Pois é…
– Como é que fazes isso?
– O quê?
– Fazer com que as pessoas gostem de ti. Sabes o poder que isso tem? Quantas raparigas devem sonhar todos os dias em ter-te ao lado delas?
– Nenhuma havia de ter paciência para me aturar… Caroline, eu sou como os outros. Para ser sincero, à custa de tudo isto, é-me praticamente impossível manter uma relação com quem quer que seja. Essas raparigas… pegam em pedacinhos de mim e preenchem-se com eles. Por exemplo, há aquelas que adoram o facto de eu ser músico, pegam nesse meu lado e definem-me com ele. Há outras que gostam do meu sotaque, pensam em mim como um britânico todo viril… Não te rias, é verdade. Outras pegam no facto de ter estado no futebol para me verem como um tipo atlético e com alguma aptidão física. É como se eu fosse um puzzle e elas pegassem só nas peças que lhes interessam para preencherem os seus próprios quadros.
– Acho que não se importavam de ter um pedaço teu, realmente.
– Caroline…
– Estou a brincar… mais ou menos… O que se passou contigo? Também não estás propriamente no melhor dos teus aspectos.
– Nada de importante. Vendas, números, datas de tours, jornalistas, entrevistas, fotografias, mexericos e boatos. Que há de novo?
– Para ti, nada.
Caroline sorriu pela primeira vez desde que tinha entrado, o que foi um alívio. Sabia que devia dizer-lhe qual o verdadeiro propósito de aparecer à sua porta a horas tão impróprias. Em vez disso, decidiu pegar outra vez na guitarra e tocar mais um bocadinho até que ela adormecesse e o silêncio tomasse conta deles.

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