Esperar=desistir Procurar=desesperar ?

É uma pergunta que faço a mim própria há já bastante tempo, ligada aos relacionamentos e ao estar solteira. É um facto que passei 94,7% da minha vida solteira. Se considerarmos que em apenas 6 anos da mesma poderei afirmar que teria minimamente maturidade para assumir uma relação, isso faz com que apenas 31,6% deva ser contabilizada, o que me leva a tirar a conclusão que, durante o período em que assumi já alguma maturidade intelectual para estar envolvida com alguém, estive solteira por cerca de 83,3% desse período. Quão nerd sou eu por me ter dado ao trabalho de ter feito estas contas? Tudo isto para chegar à óbvia conclusão de que tive e tenho tempo de sobra para pensar no futuro, para muitas vezes lamentar a possibilidade de acabar sozinha numa casa sem filhos, netos ou amor próprio, ou de um dia dar por mim e ver que todos à minha volta encontraram alguém, menos eu. É um daqueles pensamentos que prefiro não ter antes de adormecer, sob pena de me entregar à angústia do incerto, que provoca umas insónias que ninguém quer. Ao longo do tempo, fui aprendendo a lidar com essa hipótese e fui tentando torná-la cada vez menos assombrosa – ou seja, tratei de a ignorar. Perante isto, nunca tenho a certeza se me limito a estar à espera que as coisas me caiam no colo ou se procuro o sentimento que todos querem ter. Quer dizer, explicando aquilo que parece uma estranha equação, será que esperar que o momento certo e a pessoa certa cheguem, sem que nada verdadeiramente se faça para que isso aconteça, entregando todas as cartas ao destino, é sinónimo de desistir, do mesmo modo que procurar esse momento e essa pessoa a todo o custo é sinónimo de desespero? Nas histórias que lemos e vemos, as coisas acontecem tão naturalmente que talvez tenhamos um instinto fabricado para a primeira. Vejamos Romeu e Julieta, que se conheceram num baile em casa dela, sem que nenhum deles esperasse apaixonar-se um pelo outro. Tanto um como o outro fugiam ao compromisso que se preparavam para assumir com outras pessoas, logo, não procuravam. A maior história de amor – ou pelo menos a mais bem sucedida – dos últimos tempos também ilustra o mesmo. Falo de Edward e Bella. Ele julgava estar condenado à solidão, e pensava até merecê-la; ela estava tão ocupada a tentar fazer com que as vidas dos outros dessem certo que nem dedicava tempo para reflectir nisso. Até que se cruzaram na escola, e ele se sentiu fatalmente atraído por ela, e ela intrigou-se pelo mistério e estonteante perfeição dele. Em Friends, Monica e Chandler juntam-se por mero acaso, numa noite que pensavam ser a única. Em Before Sunrise, Celine e Jesse encontram-se num comboio, após um grande desgosto amoroso dele. Não há aqui uma única pessoa que tivesse planeado que qualquer uma destas coisas acontecesse. É óbvio que é absurdo pensar que as pessoas possam planear exactamente a maneira como tudo vai acontecer, que antes de saírem de casa hão-de pensar: “É hoje que conheço a pessoa que vai dar a volta ao meu mundo”. Mas há que admitir que existe aqui uma clara diferença de atitudes. Tornando as coisas mais concretas, imaginemos duas raparigas; a Anita, que espera, e a Lara, que procura. Isto pode estar a parecer um bocado novela das cinco, mas vamos lá ver se vale a pena. A Anita seria o género de pessoa que investe na carreira, nos amigos, na família, em si própria. Empenha-se numa série de actividades que acha interessantes, participa em vários projectos, sai com os amigos, participa numa série de coisas. A Lara, por sua vez, pensa menos e actua mais a nível social. Tenta conhecer sempre pessoas novas, ir a sítios diferentes, experimentar coisas distintas, conversar muito, variar os hábitos, etc. No primeiro caso, a Anita segue a sua vida, segura de que não terá de fazer nada para que aconteça o que espera. A Lara anda à procura de alguma coisa, ou de alguém, porque não se fica por investir em coisas importantes, vai desbravando um caminho que deverá ser directo ao objectivo. O primeiro pensamento lógico acerca disto é que, obviamente, será mais fácil encontrar alguém se entrarmos em contacto com pessoas diferentes, se fizermos alguma coisa para chegar a esse alguém especial. Uma pessoa com uma lista de contactos enorme tem matematicamente mais probabilidades de vir a encontrar qualquer outra pessoa no planeta do que uma pessoa que só conhece algumas outras no seu círculo de amigos, a não ser que esta última tenha amigos que, por sua vez, têm grandes e variados conhecimentos. Mas tenho a sensação que, se acordar um dia e decidir que tenho como tarefa procurar esse alguém e de facto o fizer, levando a tarefa ao extremo, ou sou conduzida a apaixonar-me com muita facilidade, por estar sempre à espera de aquele ser o momento e a pessoa, ou com uma dificuldade tremenda, por criar sempre expectativas e elas nunca parecerem ser preenchidas. Por outro lado, ao esperar, posso estar a habituar-me de tal modo a esse estado que quando surgir o momento e a pessoa, não os vou reconhecer. Mas, de qualquer modo, existirá um momento único em que se dá um click e uma só pessoa certa? Ou somos só nós que os fabricamos?

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