As nossas novas reluzentes correntes de prata

Fui ontem ver o Sexo e a Cidade 2 à espera daquilo que eu chamo de um “filme da pipoca”, isto é, um daqueles filmes com uma comédia acessível e personagens pouco densas que fazem do ecrã de cinema uma televisão em ponto grande e os assentos o nosso sofá de casa por umas horas, no qual podemos relaxar e rir preguiçosamente sem ter de pensar. No entanto, acabei por sair do cinema com uma sensação incómoda que nada teve a ver com as pipocas. Não fui espectadora atenta da série em causa, mas sabia mais ou menos do que tratava: quatro mulheres com maneiras muito diferentes de reagir perante as situações que tentam encontrar um lugar ao sol na grande e intimidante Nova Iorque, fazendo frente a quem não as aceita enquanto seres independentes e tão capazes quanto os homens. A ideia é atractiva e louvável. Contudo, a execução não é mais que o reflexo do que penso que se pode estar a passar na nossa sociedade actual, pelo que observo através de comportamentos de raparigas da minha faixa etária e não só. Confesso que desde o início que não me identifiquei com o tema do filme, em que as quatro amigas, três delas casadas, se preocupam com os dramas dos casamentos e maternidade de cada uma, com excepção da sempre exótica e muito pouco púdica Samantha, que luta incessantemente contra a passagem do tempo. Várias personagens conhecidas são revisitadas, mas o momento que mais me marcou foi aquele em que, após Samantha ter visto os seus preservativos que tinha na mala a serem espalhados pelo chão em pleno Médio Oriente, gritando injúrias aos chocados homens conservadores que assistiam, algumas mulheres vestidas com as tradicionais burkas chamarem as quatro amigas e exibirem os seus vestidos e acessórios americanos por baixo da indumentária que as cobre ao extremo. No meio de uma sociedade altamente conservadora, aquelas mulheres arranjaram maneira de se impor ao escolherem vestidos provocantes, caros e importados da américa como símbolos da sua liberdade. Mas será este o tipo de emancipação feminina que nos enaltece e faz com que sejamos respeitadas? Sem querer parecer demasiado puritana, acho um absurdo que se pense que por podermos exibir o corpo ou as curvas com vestidos caros, dançar de forma provocante e sermos tão promíscuas quanto os homens, não querendo com isto fazer qualquer tipo de crítica ao sexo oposto, isso seja sinónimo de que somos aceites na sociedade e vistas como devemos, com o respeito que merecemos. Pelo contrário, este filme fez-me pensar que só estamos a substituir as correntes de aço com que antes nos amarravam e as mordaças por correntes de prata com todo o estilo e lenços que são acessórios caríssimos. Basta ligar a televisão e ver aquelas que são os ídolos mais populares das adolescentes, que precisam de dar início a um processo no qual a roupa escasseia cada vez mais e os movimentos vão perdendo a subtileza para serem notadas e ouvidas. Que género de emancipação é esta que faz de nós objectos sexuais, que exige que sejamos vaidosas e materialistas, quer isso signifique andarmos à procura de sapatos compulsivamente, como Carrie, ou diamantes como os nossos melhores amigos. A que ponto chegamos para sermos assim tão ocas? Por que raio continuamos a ser, como o diz a Pink, as raparigas que têm a necessidade de se mostrar inferiores para atrair homens que não se sintam intimidados e estúpidas para os fazer parecer mais importantes e para se sentirem melhor? Por que é que nos andamos a acorrentar a umas às outras, permitindo a perda de dignidade em nome de uma liberdade que nos inebria e acorrenta, mas acorrenta com estilo.

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