Ideais

Hoje apercebi-me de uma coisa, uma daquelas coisas que são muito óbvias mas que, por vezes, demoram até se manifestarem em nós. No meio de uma conversa acerca de planos ideais, comecei a aperceber-me da quantidade de imagens que projectamos na nossa dita relação com a tal pessoa, a que vai chegar e, qual D.Sebastião que salva o império, resgatar-nos da solidão e do vazio interior. São variadas, às vezes das mais inconscientes. Eu, por exemplo, tenho esta imagem de um apartamento antigo, no qual estou de passagem, uma cama baixa com lençóis brancos e uma janela aberta com vista para um rio, com cortinas brancas a esvoaçar, um calor apaziguador e uma linha de sol a atravessar lentamente o quarto, à medida que nos acorda. Mas esta é uma imagem muito ténue. Costumo também dizer que gostava de ter uma filha a quem pudesse chamar Íris e um filho que pudesse ser Afonso. Mais que isso, costumo imaginar que terei uma casa de fusão de arquitectura clássica e moderna, com uma sala em que as paredes vão poder ser pintadas pelos miúdos à vontade, um grande salgueiro nas traseiras, uma casa na árvore e um baloiço feito com uma corda e um pneu pendurado de um tronco, um sistema de som instalado em toda a casa, para ouvirmos em todo o lado, e um caminho de árvores que têm aquelas florinhas brancas que cobrem o chão na Primavera, à beira do caminho de entrada do portão à porta. E poderia continuar. Divirto-me muito a imaginar-me a passear nessa casa e, de todas as vezes que a visito, acrescento mais algum pormenor, ou mudo alguma coisa, faço uma ou duas actualizações. Todos temos, de uma maneira ou de outra, não só imagens ideais do que esperamos do nosso futuro parceiro como verdadeiros quadros, situações cinematográficas, mágicas, poéticas. O problema, que hoje identifiquei e soube que sempre lá esteve, é que essas imagens ideais, esses quadros, são só nossos e, sendo assim, são mais representações da nossa solidão do que do nosso desejo de estarmos com alguém. Quererão eles dizer que só me irei apaixonar pela pessoa que também quer chamar os seus filhos de Íris e Afonso e que visualizar tão claramente como eu a janela com as cortinas brancas esvoaçantes, vista para o rio e a deixar escapar o fio de luz? Será que essa busca intrépida está relacionada com a partilha destas coisas comuns? Mas, neste caso, não estaremos nós a procurar um outro “eu” para amarmos?
O que quero com isto dizer é que, por mais encantador que seja sonhar – e eu, de todas as pessoas, sei bem do que falo -, deixar que essas imagens definam o que somos ou procuramos é provavelmente um erro trágico. Desejar desesperadamente entrar nestes quadros é imaginar-me com uma cópia de mim própria, de alguém que pensa exactamente como eu e que reage de uma maneira muito semelhante à minha. Será essa a definição de almas gémeas? Não anulará isso uma certa ideia de complementaridade, de união completa? Isto pode parecer muito estranho, sobretudo vindo de mim, mas penso que o melhor é arranjar uma maneira de dirigir esses sonhos para algo que não o nosso futuro. E, ao pensar nisso, entendo que é o que faço quando escrevo, ou canto, ou componho, ou pinto, ou desenho. Estou a emprestar essas imagens a um outro alguém que está dentro de mim, que eu entendo na perfeição e que é transportado para fora de mim para toda a gente ver. Deixarão assim as imagens de ser minhas para serem simplesmente as do meu ser sonhado? E até que ponto conseguirei aceitar o seu carácter efémero e vago?

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