Sem título – Excerto I

– Sabes… É estranho. – confessou ela, com os olhos postos na televisão.
– O que é que é estranho? – perguntou ele, atordoado e com uma dor de cabeça terrível.
– É estranho que tanta gente goste de ti sem saber quem és…
– Se calhar, se me conhecessem, já não gostariam da pessoa que sou.
– Eu gosto da pessoa que tu és.
– E tu sabes quem sou?
– Sei. Tu não?
– Nem sempre. Cada vez menos… É triste, não é?
– Não. É realista. Não estavas à espera de ser sempre a mesma coisa, pois não?
– Como assim? O que queres dizer com isso?
– Que hoje não pintaria o sofá da sala de cor-de-rosa.
– O quê?
– Quando era pequenina, a minha cor preferida era o cor-de-rosa. Um dia olhei para o sofá branco da sala e achei que ele assim não tinha piada nenhuma; então, pintei-o todo com flores cor-de-rosa.
– Um sofá branco?
– Sim, um sofá branco, novinho em folha. Fui eu que o pintei, fui eu que escolhi o cor-de-rosa. Se fosse hoje, não pintaria o sofá e, se o fizesse, garanto que seria com outra cor qualquer.
– Ok, não és a mesma pessoa que eras em criança. Mas isso é normal, não é? Cresceste. Todos crescemos.
– E paramos algum dia? Mudamos sempre, crescemos sempre, mesmo que não o queiramos. O mundo cresce à nossa volta, não há nada que o possa parar.
– Mas então e se nos desviarmos daquilo em que acreditamos, daquilo que um dia quisemos ser?
– Eu queria ser bailarina, mas também já não me passa pela cabeça.
– Eu queria ser cantor.
– Ok, isso manteve-se. É raro, mas acontece.
– É só que… Às vezes sinto que me estou a perder daquilo que era, estou a perder-me.
– Ou estás a encontrar-te com aquilo que serás, contigo próprio.
– E como é que eu sei qual deles está certo?
– Não sei… Mas é óbvio que nunca te vais encontrar com a pessoa que foste ontem. Nunca mais vou pintar o sofá branco de cor-de-rosa. E tu nunca mais vais partir a mota do teu pai, pelo menos não aquela.
– Pois não… Hey, como é que sabes isso?
– Gostas muito de dar à língua quando estás bêbado.
– Bêbado…? Eu não…
– É claro que não. Nem foi por isso que acordaste em minha casa nem nada.
– Isso… eu… desculpa… Por que é que te estás a rir?
– Porque muitas raparigas pagariam para que fosses cair bêbado nas casas delas, e pedes-me desculpa.
– Isso não faria de mim… sei lá… um prostituto?
– Não era isso que eu queria dizer.
– Eu sei, sou idiota.
– Oh, pára, estás a dizer isso só para eu o negar.
– Não… eu… Tu és demais. Não te rias, és mesmo. As outras raparigas são complicadas mas, ao fim de algum tempo, começa-se a percebê-las. Tu não és nada fácil de agradar, digo-te.
– Isso não ajuda.
– O quê?
– Dizeres-me que sou complicada.
– Se te elogiasse ajudava?
– Hum… Não, de facto…
– Vês? Eu sabia.
– Ah, afinal não devo ser assim tão complicada. Se conseguiste prever essa.
– Ai…
– O que foi?
– És tu, pões-me cansado. Estou com uma dor de cabeça…!
– Tens a certeza que isso não é do que bebeste ontem à noite?
– É a mistura explosiva das duas coisas.
– Ok, pronto, fica à vontade. Tem cuidado para não acordares a Lydia, acabou de adormecer.
– Está bem, está bem.
Caroline levantou-se do sofá e deixou a caneca de café vazia no lava loiça antes de se dirigir à saída.
– Caroline! Caroline… – repetiu, sussurrando, em resposta aos gestos efusivos dela, parada na porta. – Quem é a Lydia?
– A minha sobrinha de três meses. Acabei de a pôr a dormir.
Ele levantou-se para mirar a humilde sala onde estava e o sofá onde tinha dormido. Voltou a olhar para Caroline e viu que se preparava para sair, de casaco vestido e mala na mão.
– Espera! Onde pensas que vais? Deixas assim a miúda sozinha em casa?
– Não, tu estás cá.
– Eu? Eu é o mesmo que nada.
– Não, não é. – riu-se. – Eu não me demoro, vou só buscar a tua máquina fotográfica antes que a vendam por milhões no e-bay com as fotografias.
– Que fotografias?
– Logo vês. Demoro uma meia hora no máximo. Até já.
– Até…
Caroline fechou suavemente a porta atrás de si, deixando postrado na sua sala, despenteado e a cheirar a álcool, ainda muito pouco tolerante a qualquer tipo de barulho.

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