Na expectativa…

Toda a minha vida fui ouvindo expressões como “Quem espera, desespera”, entre outras que a parafraseiam.
É-nos incutido que a espera é algo doloroso, que nunca mais chega, que queremos com tanta força que parece uma tortura ter de aguardar com paciência. Costumo assinar por baixo desta sabedoria popular, a de pensar que a espera é inimiga da tranquilidade, do sossego. No entanto, começo cada vez mais a perceber que, como dizem os noruegueses Kings of Convenience, o poder de não saber* o que nos espera é uma coisa extraordinária. A espera concede-nos a maravilhosa capacidade de idealizarmos, sonharmos com o que está para vir à nossa maneira, sem barreiras, sem restrições, sem a incómoda imposição da realidade, nem sempre sorridente. Podemos projectar os resultados da coisa que esperamos, quer esta seja o simples passar de tempo, a concretização de um trabalho ou qualquer outra coisa; construir o nosso produto da maneira que nos apetece, ambicionar tudo aquilo a que nos permitirmos, dependendo do quão queremos arriscar para quando a verdade se impuser. Enquanto esperamos pela idade adulta, imaginamo-nos muito bem sucedidos, felizes, com ambições, possivelmente família, dependendo de cada um; enquanto esperamos pelo Verão, sonhamos com o mar azul, a praia banhada de sol, um calor convidativo, noites maravilhosas com amigos; enquanto esperamos pelo nascimento de um filho, projectamos-lhe um futuro risonho, à medida dos seus próprios sonhos; enquanto esperamos pelos resultados de qualquer coisa que nos pôs à prova, pedimos para que tudo resulte da melhor maneira. É um poder que nem nos apercebemos que temos e, talvez por isso, ele permaneça tão mágico e intocável. Se o reconhecêssemos plenamente, era provável que perdesse a magia.
E aqui está o que é curioso: é que nunca seremos capazes de o reconhecer porque ele implica sempre a realização de algo; ele não é o pico da emoção reconhecido, embora acabe por ser a melhor parte. É claro que isso não implica que fiquemos à espera que as coisas nos caiam no colo, que nos aconcheguemos neste estado que, assim, deixa de ser espera para passar a ser comodismo. Aí é que está muita vez o nosso erro, expresso nas coisas começadas mas inacabadas, na falta de esforço, de crença em nós próprios. Talvez a realização não seja tão florida como a imaginamos mas, pelo caminho, podemos dizer que fomos muito felizes.
Enquanto tivermos alguma coisa por que esperar, a completa infelicidade não terá portas abertas a consumir-nos.

*Power of not Knowing é uma música do grupo noruguês Kings of Convenience, composto por Erlend Øye e Eirik Glambek Bøe , presente no albúm da banda de 2009, Declaration of Dependence.

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